Oriente Médio: Região Estratégica para as exportações brasileiras

Oriente Médio: Região Estratégica para as exportações brasileiras

Por Marcello Vinícius de Oliveira

Durante o governo Lula, o Brasil buscou expandir sua agenda de relações externas, dotando a política externa brasileira de um forte viés multilateralista, com uma atuação constante da diplomacia brasileira em fóruns multilaterais de debate diversos em diferentes pautas. No escopo dessa atuação mais assertiva da política externa brasileira, veio também a diversificação da pauta de países com quem o Brasil tradicionalmente cultivava relações. Até então, o Brasil havia privilegiado relações em uma lógica que se assentava no eixo Norte-Sul, ou seja, o foco de atenção do Brasil em diversos âmbitos (econômico, comercial, político) se encontrava no Hemisfério Norte, em especial Estados Unidos e Europa (HAFFNER, 2012)

Com essa guinada da política externa Brasileira, o privilégio de relações passou a se basear em uma lógica sul-sul, ou seja, o Brasil passou a buscar parceiros em regiões diversas e muitas vezes não tão tradicionais a linha de atuação brasileira (HAFFNER, 2012). A terminologia Sul-Sul se encaixa em dois âmbitos, tanto em um aspecto geográfico de fato, ou seja, atenção maior a países que se encontravam no Hemisfério Sul, tanto quanto se encaixa em um âmbito de identificação mútua de países que se encontram em desenvolvimento e não estão inseridos no conjunto das primeiras economias.

Como pontua o professor Danny Zahreddine, chefe do Departamento de Relações Internacionais da PUC Minas:

O caráter universalista da política externa brasileira, isto é, o aumento dos contatos internacionais, principalmente no âmbito comercial e político, em detrimento de uma política voltada para uma única região ou um grupo menor de atores internacionais. Esse tipo de ação resultou no aumento dos parceiros comerciais nas mais diversas regiões do mundo, inclusive com os países árabes e os demais países do Oriente Médio (ZAHREDDINE)

A preocupação era diversificar a pauta comercial internacional brasileira a partir da abertura de novos mercados, dentre essas regiões destacou-se o Oriente Médio. Até então o ápice de maior estreitamento de relações entre o Brasil e essa região, havia acontecido ainda sob o regime militar, nas décadas de 1970 e 1980 (HAFFNER, 2012).

Como fica evidente abaixo, o Brasil possui representações diplomáticas em quase a totalidade do Oriente Médio:

representações brasileiras no Oriente Médio

(Fonte: Ministério das Relações Exteriores)

Ao longo dos anos os frutos essa reaproximação refletiu-se amplamente no intercâmbio comercial do Brasil com os países do Oriente Médio, com um crescimento gradativo das trocas comerciais e estabelecimento de vínculos econômicos. Relações estas, que se mostraram resilientes mesmo frente a momentos de incertezas e turbulências, como a Primavera Árabe e a transição política brasileira decorrente do processo de impeachment da última presidente. Pode-se visualizar esse caráter produtivo dessas relações através do crescimento comercial a partir dos dados disponibilizados pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC):

Dados MDIC comércio com o oriente médio

(Fonte: inistério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços -MDIC)

Os principais parceiros comercias do Brasil no Oriente Médio no ano de 2016, em relação às exportações segundo dados do MDIC, foram:

Arábia Saudita (25%)* US$ 2,49 bilhões*

  • Alguns exemplos dos produtos exportados:   Carne de frango (46%), açúcar (14%), soja (6%), carne bovina (4,4%), milho (4,3%), Automóveis de passageiros (4,2%), Munição de caça e esporte (2,6%), tubos de ferro fundido, ferro, aço e acessórios (2,1%).

Emirados Árabes Unidos (22%) US$ 2,24 bilhões*

  • Alguns exemplos dos produtos exportados: Carnes de frango (21%), açúcar refinado (16%), óxidos e hidróxidos de alumínio (11%), Tubos de ferro fundido, ferro, aço e acessórios (7,3%), carne de bovino (3,4%), calçados (0,74%).

Irã (22%) US$ 2,23 bilhões*

  • Alguns exemplos dos produtos exportados: Milho em grãos (36%), soja (21%), carne de bovino (17%), resíduos de óleo de soja (11%), açúcar (9,2%), chassis com motor para veículos e automóveis (3,2%), veículos de carga (0,15%), suco de laranja (0,12%). 

*Dados disponíveis em: http://www.mdic.gov.br/comercio-exterior/estatisticas-de-comercio-exterior/comex-vis/frame-bloco?bloco=oriente_medio 

Além do destaque setor do agronegócio nas exportações para o Oriente Médio, outro setor que tem apresentado um crescimento gradativo nas trocas comerciais é o setor de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos. Segundo dados da Associação Brasileira de Consultoria e Assessoria em Comércio Exterior (ABRACOMEX), no ano de 2016, 25 empresas brasileiras de cosméticos e produtos de beleza participaram da 21ª Edição da Beautyworld Middl Middle East, e ao longo de três dias de eventos (15-17 de maio), alcançaram mais US$ 2,6 milhões em negócios fechados. (ABRCOMEX). A 22ª edição da feira ocorre também no mês de maio de 2017. Os interessados podem obter mais informações através do site: http://www.beautyworldme.com

Destaques recentes na agenda Brasil – Oriente Médio

Em novembro de 2016, ocorreu a reunião da Comissão Econômica Brasil-Irã, entre as autoridades relacionadas a relações exteriores e comércio exterior de ambos os países. Segundo projeções levantadas pelo ministro do MDIC, Marcos Pereira, espera-se que ao longo dos próximos anos o comércio bilateral atinja o patamar de cinco bilhões de dólares. Essas projeções se baseiam segundo o ministro no fato de que somente nos dez primeiros meses de 2016, o montante do comércio realizados entre os dois países, foi superior a todo o ano de 2015. No decorrer da reunião assinou-se um Memorando de Entendimento sobre Cooperação em Comércio e Investimento, um exemplo de como os dois países almejam a fomentação dos negócios e a facilitação da cooperação entre os setores produtivos de ambos (MDIC, 2016). Segundo destacou o Ministro brasileiro Marcos Pereira:

Estas parcerias, a meu ver, possuem grande potencial nos mais diversos setores. Para além do já consolidado comércio de itens alimentícios, entendo haver grande espaço para produtos de maior valor agregado. Mencionaria, por exemplo, veículos automotores e autopeças, aeronaves, equipamentos médicos e hospitalares, máquinas e equipamentos (MDIC, 2016)

Por sua vez, o Irã manifestou através do ministro Ali Taiebnia, que o Irã constitui-se como um dos países mais estáveis e prósperos do Oriente Médio, e que é do interesse do país persa manter suas relações próximas com o Brasil e trabalhar para ampliá-las (MDIC, 2016).

Depois de um crescimento progressivo até 2011/2012, onde o fluxo comercial bilateral alcançou US$ 2 bilhões, houve uma queda de aproximadamente 50% no intercâmbio comercial nos anos seguintes, principalmente em virtude das sanções econômicas que foram aplicadas ao país em virtude de seu controverso programa nuclear. No entanto, mesmo ao longo desse período o Brasil manteve boas relações com o país, com a visita de nossos chanceleres ao país em duas ocasiões. Com o acordo firmado pelas potências mundiais e o Irã e a gradativa retirada das sanções no fim de 2015, criou-se uma grande expectativa de que o comércio bilateral se fortaleça novamente (DEUTSCHE WALLE, 2016). As observações feitas pelo ministro Marcos Pereira acerca do crescimento do intercâmbio comercial ao longo de 2016, é um reflexo claro dos desdobramentos políticos internacionais e do fim das sanções.

No último dia 16 de março, o Brasil recebeu também a visita do chanceler dos Emirados Árabes Unidos, Abdullah bin Zayed bin Sultan Al Nahyan, que veio a país exatamente para iniciar conversações que potencializem o comércio entre o Brasil e o país árabe. A pauta principal entre os dois países é que se alcancem acordos que garantam segurança jurídica aos investimentos dos Emirados Árabes a projetos brasileiros. Foram destacados pelo chanceler, a forma positiva de como o seu país tem visto os avanços realizados pelo governo brasileiro e que o país tem alto interesse em investir no Brasil (MDIC, 2017)

Sendo assim, em confirmação a essa relação estratégica e frutífera que o Brasil mantêm com o Oriente Médio, há a afirmação feita pelo novo chanceler brasileiro, Aloysio Nunes, em ocasião de sua posse como ministro de Estado:

São fortes e conhecidos, também, nossos laços históricos, humanos, econômico-comerciais com países do Oriente Médio, que devem ser – e serão – objeto de esforço contínuo de aproximação nesses e em todos os campos (MRE, 2017).

REFERÊNCIAS

ABRACOMEX. Empresas de cosméticos focam nas exportações para o Oriente Médio. Disponível em: < http://www.abracomex.org/empresas-de-cosmeticos-focam-nas-exportacoes-para-o-oriente-medio/> . Acesso em: 20 de março de 2017.

ABREU, Fernando José Marroni (Embaixador). Audiência Pública: Situação no Grande Oriente Médio. Ministério das Relações Exteriores – MRE, Comissão  de Relações Exteriores e Defesa Nacional – Senado Federal. Brasília, março 2016. Disponível em: < www19.senado.gov.br/sdleg-getter/public/getDocument%3Fdocverid%3Dd83a471e-64bd-4136-96fc-2dcf26f37f3c%3B1.0+&cd=13&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br> . Acesso em: 20 de março de 2017.

DEUTSCHE WELLE. Brasil pode se beneficiar com fim de sanções ao Irã. Disponível em: < http://www.dw.com/pt-br/brasil-pode-se-beneficiar-com-fim-de-san%C3%A7%C3%B5es-ao-ir%C3%A3/a-18987884> . Acesso em: 20 de março de 2017.

HAFFNER, Jacqueline A. H.; HOLAND, Carla A. R. Relações econômicas entre o Brasil e o Oriente Médio no governo Lula. Porto Alegre, 2012. Disponível em: < http://seer3.fapa.com.br/index.php/arquivos/article/view/145/141> . Acesso em: 20 de março de 2017.

Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços –MDIC. Brasil e Emirados Árabes discutem avanço nas relações comerciais. Disponível em: < http://www.mdic.gov.br//noticias/2369-brasil-e-emirados-arabes-unidos-discutem-avanco-nas-relacoes-comerciais>. Acesso em: 20 de março de 2017.

Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços –MDIC. Comex Vis: Continentes e Blocos: Oriente Médio. Disponível em: < http://www.mdic.gov.br/comercio-exterior/estatisticas-de-comercio-exterior/comex-vis/frame-bloco?bloco=oriente_medio> . Acesso em:  20 de março de 2017.

Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços –MDIC. Comércio entre Brasil e Irã deve chegar a US$ 5 bilhões nos próximos anos, afirma Marcos Pereira. Disponível em: < http://www.mdic.gov.br/noticias/2098-comercio-entre-brasil-e-ira-deve-chegar-a-us-5-bilhoes-nos-proximos-anos-afirma-marcos-pereira> . Acesso em: 20 de março de 2017

Ministério das Relações Exteriores. Texto-base para o discurso de posse do Ministro de Estado das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira – Palácio Itamaraty, 7 de março de 2017. Disponível em: < http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/discursos-artigos-e-entrevistas-categoria/ministro-das-relacoes-exteriores-discursos/15828-texto-base-para-o-discurso-de-posse-do-ministro-de-estado-das-relacoes-exteriores-aloysio-nunes-ferreira-palacio-itamaraty-7-de-marco-de-2017> . Acesso em: 20 de março de 2017.

ZAHREDDINE, Danny. Laços históricos: Brasil e Oriente Médio. ESTADO DE MINAS. PENSAR BRASIL. Sábado, 9 de abril de 2011. p. 14-16. Disponível em: < http://geopolitics.com.br/La%C3%A7os%20hist%C3%B3ricos%20-%20Estado%20de%20Minas.pdf> . Acesso em: 20 de março de 2017.

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