O Café das Minas Gerais – Saiba Mais

O Café das Minas Gerais – Saiba Mais¹

Por Pereira et al.²

Cerca de 72 países, de acordo com as informações da Organização Internacional do Café (OIC), são produtores do café em grão no mundo. Este alto número de produtores é justificado devido à longa faixa capaz de realizar a produção. Ainda, segundo a OIC, a região dos Trópicos de Câncer e de Capricórnio são aptas para produção de café e as condições climáticas variadas entre os dois hemisférios favorece a produção, com os principais produtores concentrados na América do Sul (Colômbia e Brasil), América Central e Ásia (Vietnã) (SINDICAFÉ, 2004).

A planta do café tem origem na África e migrou por todo o Oriente. Este avanço foi identificado a partir da percepção de que este produto era de mercado. Segundo a obra “História do Café”, de Ana Luiza Martins (2008), percebe-se que:

Desde o início como produto de mercado, do qual o primeiro foi a península arábica, nos idos do século XIV. Popularizou-se na Turquia, no século XVI, em estabelecimentos comerciais com o nome de “Café”. Difundiu-se na Europa, sendo distribuído a partir de Veneza, já no século XVII, em que pese a oposição ideológica da igreja católica, identificando o café como bebida advinda dos pagãos muçulmanos, e da disputa de mercado com os vinhos e a partir da sua consolidação, houve sua dispersão pelo mundo (MARTINS, 2008).

Cerca de 1/3 de todo o café do mundo vem do Brasil, o que torna o nosso país, de longe, o maior produtor e exportador de café mundial. O país tem ocupado essa posição nos últimos 150 anos. As plantações de café, que cobrem cerca de 10 mil quilômetros quadrados, estão localizadas principalmente nos estados de Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo, no Sudeste e ao Sul, no Paraná, onde o ambiente e o clima oferecem condições ideais de crescimento. A cultura chegou ao Brasil no século XVIII e o país se tornou o produtor dominante na década de 1840. Segundo o historiador Boris Fausto, em seu livro “Uma História Concisa do Brasil”, o primeiro arbusto de café no Brasil foi plantado por Francisco de Melo Palheta no estado do Pará em 1727 (FURTADO, 2005).

A indústria cafeeira desempenhou um papel relevante na economia brasileira. Em razão do fim do ciclo do ouro, a comercialização do café ganhou destaque no cenário mineiro, visto que o café era um dos produtos primários mais comercializados no mundo, atrás apenas do petróleo. Isto implica dizer que a indústria cafeeira representava naquele momento a movimentação e aquecimento da economia, pois a importação, comercialização e transporte do café proporcionou um número maior de empregos e, consequentemente, renda para a população (SINDICAFÉ, 2004).

Em Minas Gerais, maior estado exportador, a cultura da produção de café ganhou força em 1907 e a Zona da Mata passou a ser rota de transporte em razão do Caminho Novo (criado para o transporte do ouro). Neste período a centralização do café na Zona da Mata beneficiou o enriquecimento da região (PI-KATO, 2016). Atualmente, o setor cafeeiro recebe destaque no estado, com mais de 50 milhões de sacas produzidas em 2016 e, embora tenha dados expressivos de crescimento, as exportações obtiveram redução de 8,1% em relação ao ano de 2015 (G1, 2017). Para diminuir os desafios deste segmento, as políticas públicas mostram-se essenciais para o aumento da competitividade do café brasileiro e mineiro no mercado internacional.

Aos auspícios da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SEAPA), está a Subsecretaria do Agronegócio, que coordena as políticas públicas direcionadas ao setor cafeeiro, por meio do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) e da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (EMATER-MG), responsáveis pelo acompanhamento da certificação internacional do café – título facilitador do acesso do produto a mercados de maior valor agregado no país e no exterior. O Polo de Excelência do Café dialoga com instituições fundamentais no fomento aa  competitividade de empresas inseridas na cadeia produtiva do café, bem como a evolução do produto: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EMBRAPA), a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), a Fundação Procafé, a Universidade Federal de Lavras (UFLA) e os Institutos Federais de Educação Tecnológica de Muzambinho e Machado (ALMG, 2017).

Estes pólos, em parceria com a administração pública indireta, promovem o fomento,, interlocução e atividades direcionadas à promoção da exportação do café mineiro.  Workshops, palestras e seminários acerca do tema são realizados em feiras por meio de qualificação profissional, principalmente nas empresas inseridas no Sistema S (SENAC, SESC, SESCOOP, SENAI, SESI, SEST, SENAT), bem como a Senar Minas (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais – FAEMG), que ofereceu minicursos de torra de café durante o Simpósio de Cafeicultura das Matas de Minas nas últimas edições. A política pública mencionada contribui para a qualificação da mão-de-obra cafeeira nos recursos produtivos, a proporcionar novas perspectivas para o trabalhador dentro deste segmento. Já o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE-MG), também integrante do Sistema S, disponibiliza informações no website que possibilitam aos produtores cafeeiros, melhoria e cuidados com a terra (solo), na produção do café, seja qual for a modalidade. Neste caso, analisa-se também a infraestrutura, visto que, ao seguir estas orientações, o produtor evitará o desgaste do cafezal, otimizando o resultado na colheita. A mesma entidade também oportuniza o empreendedorismo, a expor os mercados existentes aos interessados no ramo e contribuir para a ampliação da competitividade, bem como provocar os envolvidos na produção do café, a utilizarem mecanismos sustentáveis, em prol do meio ambiente. Ademais, o SEBRAE-MG apresenta políticas de inovação para que o Brasil, tal como Minas Gerais , atenda aos requisitos internacionais e ocupe espaços cada vez mais significativos no mercado cafeeiro (GUIMARÃES; SEBRAE, 2017).

Os pesquisadores também contribuem ativamente para a elaboração de políticas públicas voltadas para este segmento. O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT Café), juntamente com a FAPEMIG, realizam estudos acerca das possíveis melhorias no produto, de modo que haja acompanhamento na produção e exporta-se café de qualidade, com intuito de preservar as normas técnicas e regulamentos, o que enfatiza a importância destas ações para o progresso do setor (FAPEMIG, s.d). O programa Certifica Minas Café,  do governo estadual, por meio da SEAPA, Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (EMATER-MG) e Instituto Mineiro da Agropecuária (IMA) também coopera neste sentido, na disseminação  das boas práticas de produção e gestão inovadora para agregar valor ao café mineiro internacionalmente (AGÊNCIA MINAS GERAIS, 2017).

Além das políticas públicas, fatores externos influenciam consideravelmente a competitividade para evolução do setor cafeeiro. O Brasil perde, aos poucos, espaço para mercados da Colômbia, Guatemala, Costa Rica, em razão destes possuírem “prêmio” de qualidade, o que torna os produtos destes países mais valorizados. Todavia, o país possui maior vantagem em relação aos outros produtores, em virtude da variedade cafeeira. Assim sendo, o maior desafio do país na atualidade é justamente a inserção no mercado de cafés especiais. A indústria de café solúvel concentra boa parte da sua produção no mercado internacional. Entretanto, enfrenta três obstáculos (SAES; NAKAZONE; NASSAR, 2002):

Primeiramente, o aumento da produção de café robusta na Ásia alarga o diferencial de preços entre a matéria-prima do solúvel no mercado externo e no Brasil, favorecendo as indústrias localizadas no mercado internacional. Em segundo lugar, o café solúvel brasileiro sofre barreiras tarifárias na União Europeia, enquanto as indústrias dos países concorrentes ou são isentas das taxas de importação, sob alegação de uma política de cooperação ao combate do narcotráfico, ou são taxadas com uma menor alíquota, como no caso do México e Índia. Por fim, a questão tributária gera distorções que reduzem a competitividade do café brasileiro (SAES; NAKAZONE; NASSAR, 2002, p.3).

Para melhor compreensão, é necessário diferenciar os mercados de café robusta e arábica. O café robusta brasileiro perde espaço para o Vietnã, devido ao processo de cultivo e custo de produção mais baixo. O segundo maior produtor de robusta é a Indonésia, que também possui produção superior à brasileira: reflexo das secas que assolam ciclicamente o estado do Espirito Santo, principal produtor de café robusta do Brasil. De acordo com Estudos da Competitividade de Cadeias Integradas no Brasil: Impactos das Zonas de Livre Comércio (2002), “a produtividade média brasileira na produção de robusta fica em torno de 11,6 sacas por hectares, o que representa a quarta colocação na classificação geral, logo após, Tailândia e Índia”. Em relação ao café arábica, a produtividade do Brasil é semelhante ao da Colômbia, com a ascensão da produção brasileira nas áreas de fronteira, principalmente no cerrado brasileiro. Os produtores brasileiros passaram a liderar o mercado cafeeiro, devido à disseminação de um novo método tecnológico na produção de café. A união entre tecnologia, escala de produção, além dos cerrados brasileiros, desenvolvem um papel importante no desenvolvimento da competitividade (SAES; NAKAZONE; NASSAR, 2002).

Novo horizonte à vista: Cafés Especiais

Em decorrência da expansão do mercado de cafeteiras, a Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC) estima que o mercado de cafés especiais triplique até 2019, visto que as cápsulas utilizadas nas cafeteiras possuem esse tipo de café. Desde 2014, o café gourmetizado e, consequentemente, o de tipo especial, tem conquistado espaço no cenário de produção cafeeiro nacional, pela praticidade que as cafeteiras apresentam no preparo do café. O aumento da oferta destas máquinas de café e a queda dos preços destas, relacionadas à patente da Nespresso, trouxe um consumo mais acessível de cápsulas aos consumidores (SOCIEDADE NACIONAL DE AGRICULTURA, 2016). Assim, atraem-se os olhares norte-americanos, a fim de garantir o aumento de exportações de café para o principal importador deste produto no mundo, os Estados Unidos da América (EUA).

Exemplo de perspectivas promissoras para cafés especiais, a Brazilian Speciality Coffee Association (BSCA), situada em Varginha – em parceria com a Apex-Brasil – apresentou recorde de exportação de cafés especiais com o projeto “Brazil. The Coffee Nation”: aproximadamente 1,6 bilhão de dólares, distribuídos entre 78 países, cuja maior receita foi empregada pelos EUA. Este projeto consiste no foco na promoção comercial dos cafés especiais brasileiros no mercado externo. Desta forma, reforça a imagem dos produtos nacionais no cenário internacional e posiciona o país como fornecedor de alta qualidade, com utilização de tecnologias inovadoras, oriundas de pesquisas realizadas. O Projeto vai até maio de 2018, priorizando os mercados-alvo: Alemanha, Austrália, Canadá, China/Taiwan, Coreia do Sul, Japão, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido (BSCA, 2017). Que não é suficiente para que Brasil e Minas Gerais alcancem destaque principal na exportação de café.

Futuro do setor cafeeiro nas mãos da inovação

Como visto, há uma forte propensão na expansão do setor cafeeiro mineiro em direção aos Estados Unidos e demais países importadores, principalmente no que concerne ao café não industrializado (grãos e verde), devido ao monopólio que as empresas americanas detêm na torrefação de café. Além disso, com o crescimento na utilização de máquinas de café, a procura pela modalidade de café em grãos tende a crescer. O mercado cafeeiro brasileiro é destaque na produção, entretanto, nota-se um déficit na estrutura interna, a insuficiência nas políticas públicas: o estado não impulsiona o desenvolvimento da indústria cafeicultora de maneira satisfatória, devido à falta de planejamento. Assim, manter-se competitivo no mercado externo é uma tarefa árdua.

A concorrência de outros países com o Brasil e, consequentemente, com Minas Gerais ganha força, já que o Vietnã é o principal concorrente na modalidade do café robusta. Embora empresas privadas invistam nos pequenos agricultores, a presença do governo estadual faz-se importante, visto que favorece a aproximação entre os principais importadores de café – EUA e União Europeia – com o mercado cafeicultor mineiro.

Minas Gerais possui boas possibilidades de inserção no mercado cafeeiro americano. Contudo, o baixo investimento em recursos tecnológicos destinado ao setor pode comprometer os desdobramentos. Cabe ressaltar que é necessário precaver de possíveis infortúnios, como mudanças climáticas e hídricas. As geadas, chuvas e instabilidade do tempo impactam diretamente na produção e qualidade do café que, por sua vez, compromete a colheita. Já que desastres naturais não podem ser impedidos, é possível planejar para que os danos sejam minimizados. De acordo com ABIC (2017), é possível que a safra de 2017/2018 seja prejudicada, com redução na produção referente a este período. Minas Gerais não desfruta da mesma competitividade forte em relação ao café industrializado. Alemanha e Itália investem maciçamente em recurso tecnológicos, para apresentarem ao mundo um café cada vez mais qualificado, distanciando o Brasil do posto de maior exportador. Assim, mostra-se fundamental o investimento conjunto de entidades públicas e iniciativa privada para a aquisição de meios tecnológicos e incentivos à adequação aos requisitos técnicos neste segmento, com intuito de responder positivamente às demandas internacionais e ocupar o lugar que corresponde a sua potencialidade de produção.

_______________

Notas:

¹ O presente artigo é baseado na pesquisa “Análise de competitividade do setor cafeeiro em Minas Gerais para entrada no Mercado Internacional”, apresentado no Circuito Acadêmico do Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), por meio do Trabalho Interdisciplinar de Graduação (TIG).

² Os autores da pesquisa – Bárbara Pereira, Carla Queiroz, Felipe Gonçalves, Flávia Regina, Rayssa Damásio e Thays Magalhães – são discentes do 8º período do Curso de Relações Internacionais do UniBH, orientados pelo Prof. Otávio Rezende, doutor em Administração de Empresas (UFMG) e atual coordenador do Exportaminas.

_______________

REFERÊNCIAS

AGÊNCIA MINAS GERAIS. 2016. Café mineiro agrega tecnologia e qualidade com o apoio do Estado e atrai atenção de multinacionais.  Disponível em: <http://www.agenciaminas.mg.gov.br/noticia/cafe-mineiro-agrega-tecnologia-e-qualidade-com-apoio-do-estado-e-atrai-atencao-de-multinacionais> Acesso em: 08 abr. 2017.

ALMG. Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Políticas ao seu Alcance. Café. Disponível em: < https://politicaspublicas.almg.gov.br/temas/index.html?tagNivel1=192&tagAtual=10077>. Acesso em 15 abr. 2017.

APEX-BRASIL. “Brazil. The Coffee Nation gera US$ 1,57 bilhão“. Disponível em: <http://www.apexbrasil.com.br/Noticia/BRAZIL-THE-COFFEE-NATION-GERA-US-1-57-BILHAO>. Acesso em: 20 mai. 2017.

BRAZIL. THE COFFEE NATION. A BSCA. Brazilian Speciality Coffee Association. Disponível em: <http://bsca.com.br/a-bsca>. Acesso em: 20 mai. 2017.

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Companhia Editora Nacional, São Paulo, 32 ed., 2005.

GUIMARÃES, Natália. Senar oferece minicursos de torra no Simpósio de Cafeicultura das Matas de Minas. Senar Minas, abr. 2017. Disponível em: <http://www.sistemafaemg.org.br/Noticia.aspx?Code=13033&Portal=3&PortalNews=3&ParentCode=103&ParentPath=None&ContentVersion=R>. Acesso em: 18 abr. 2017.

MARTINS, Ana Luíza. História do café. São Paulo: Contexto, 2008. 316 p.

PI-KATO, Breno. História do café em Minas Gerais. São Paulo. Centro Do Comércio de Café do Estado de Minas Gerais. Disponível em: <http://cccmg.com.br/historia-do-cafe-em-minas-gerais/#comment-237> Acesso em: 19 mar. 2017.

SAES, Maria Sylvia Macchione; NAKAZONE, Douglas; NASSAR, André Meloni. Estudos da Competitividade de cadeias Integradas no Brasil: Impactos das Zonas de Livre Comércio. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2002. 142 p. Disponível em:<http://pensa.org.br/wp-content/uploads/2011/10/Estudo_da_competitividade_de_cadeias_integradas_no_Brasil_2002.pdf>. Acesso em: 02 Jun. 2017.

SEBRAE. Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. Pesquisa sobre Café. Disponível em: <http://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/Busca?q=Caf%C3%A9>. Acesso em: 20 abr. 2017.

SINDICAFÉ. Sindicato da Indústria de Café do Estado de Minas Gerais. Disponível em: <http://sindicafe-mg.com.br/plus/modulos/conteudo/?tac=cafe-no-mundo>. Acesso em: 19 mar. 2017.

SOARES, Lucas. Mesmo com safra menor em 2017, café ainda deverá ‘salvar’ economia. G1. 2017. Disponível em:<http://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2017/01/mesmo-com-safra-menor-em-2017-cafe-ainda-devera-salvar-economia.html> Acesso em: 24 jun. 2017.

SOCIEDADE NACIONAL DA AGRICULTURA. Mercado de Café Especiais deve Triplicar até 2019 no Brasil, estima ABIC. Disponível em: <http://sna.agr.br/mercado-de-cafes-especiais-deve-triplicar-ate-2019-no-brasil-estima-abic/. Acesso em: 02 Jun. 2017.

No comments
Share:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *