A França nos ensina “encore une fois”

A França nos ensina “encore une fois”

Por Sherban Leonardo Cretoiu*

Perguntado meses atrás por meus alunos franceses da Skema Business School sobre o que primeiro me vem à mente quando o assunto é França, a resposta veio rápida e sem hesitação: liberté, égalité, fraternité. Na semana passada, perguntei a eles sobre os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais a resposta também veio rápida e contundente: decepção e vergonha. E a explicação teve nome e sobrenome, Marine Le Pen.

Incompreensível para jovens ainda abaixo dos 30 que quase vinte milhões de franceses tenham escolhido um caminho tão oposto a um dos principais legados deste país para a humanidade. Séculos se passaram e o lema da Revolução Francesa parece estar ameaçado por uma escolha que traz o racismo, o sectarismo e o isolacionismo como plataformas de onde surgiriam soluções para mais uma nação do mundo desenvolvido que sente no seu cotidiano os efeitos da mudança irreversível do eixo econômico mundial para a Ásia.

Ganhe Macron ou Le Pen, seja quem for escolhido primeiro ministro, e qualquer que seja o resultado das eleições legislativas, o que estas eleições evidenciam uma vez mais – vide BREXIT e Trump – é que os perdedores da era da globalização encontraram, para além do mofado debate entre direita e esquerda, e nas promessas populistas do protecionismo comercial e das barreiras migratórias, um suposto caminho de volta à prosperidade e tranquilidade perdidas.

Uma simples análise dos mapas eleitorais no Reino Unido, nos EUA e na França, evidencia que dentro e para além das grandes metrópoles e regiões que lideram e se beneficiam das grandes cadeias globais de valor integradas e mundialmente dispersas, existem aqueles cidadãos e eleitores que não fazem parte da elite de empresários e gestores corporativos, políticos e burocratas, profissionais liberais e acadêmicos, artistas, esportistas e herdeiros em geral.

Aqueles, que chamamos os perdedores da globalização, são os novos pobres, negligenciados de sociedades cujas economias vão dia após dia perdendo competitividade para novas economias de antigas nações em que o normal ainda é trabalhar mais, manufaturar e produzir, poupar e ao mesmo tempo consumir, quem sabe até tirando uma selfie na Champs Eliseé.

Nestes tempos de populistas turbinados pela tecnologia e inescrupulosos praticantes da pós-verdade nos vários setores da sociedade, o espectro político tradicional se vê desgastado pelas práticas de corrupção patrocinadas por um gangsters empresariais que dominam o establishment em vários países. Assim, os que estão alijados das benesses da globalização exercem com raiva seu direito ao voto, e mesmo que com pouca convicção ou alguma vergonha, escolhem apostar naqueles que oportunisticamente os consolam com discursos e promessas que sabem ser improvável cumprir.

Um outro caminho possível surge nesta mesma França que seguirá nos inspirando mesmo que o En Marche não vença. A história está repleta de exemplos de vitórias que serviram apenas para ilustrar os últimos estertores de ideias ultrapassadas. Vencendo Le Pen veremos mais uma grande nação temporariamente acolhendo o retrocesso e apostando na divisão. Vencendo Macron, teremos um verdadeiro laboratório ou, para quem preferir, um ateliê, onde novas agendas e velhos atores buscarão as soluções alternativas ao que não funciona mais e ao que nunca deveria sequer ter sido considerado.

O que o Brasil ganha ou perde em cada um destes cenários é algo que, neste momento, pertence ao reino da especulação. Simplificando muito, uma vitória de Le Pen e eventual saída da França da União Europeia poderia facilitar o acordo do Mercosul com aquele bloco, pois os entraves nas negociações de produtos agrícolas poderiam ser superados. No entanto, alguma mudança neste mesmo sentido poderia vir também com Macron se o novo governo buscar reduzir subsídios e a proteção quase total de que gozam os agricultores franceses há décadas. Mas o nosso principal desafio como país, é e sempre foi principalmente, superar o imobilismo e a desarticulação que nos caracterizam quando o assunto é a inserção competitiva da economia brasileira na economia global.

O Brasil, por toda sua potencialidade e estrutura produtiva tem, em tese, condições de prosperar em qualquer conjuntura internacional em que predomine a paz e os fluxos de comércio e investimentos sejam mantidos. O problema é que somos um desperdiçador contumaz de oportunidades e do nosso próprio potencial. Ainda não testemunhei um governo sequer que tenha claramente definido um projeto de inserção competitiva brasileira nas cadeias globais de valor ou que tenha priorizado nas relações internacionais uma estratégia de liderança política e econômica pragmática e condizente com o porte da nossa economia, dos nossos recursos e do nosso talento.

Um eventual governo com viés isolacionista na França ofereceria ao Brasil a oportunidade de ocupar espaços políticos e econômicos interessantes no restante da Europa e na África, em função da diversidade e potencialidade dos nossos setores agrícolas e industriais. Mas caberia também às empresas transformar oportunidades em negócios. Aqui temos outro problema, o pouco interesse pelo mercado internacional e a falta de um mindset global que caracterizam grande parte do nosso empresariado. Resumindo, as oportunidades são e continuarão sendo muitas. Resta saber quando o Brasil conseguirá articular uma agenda política e econômica a partir de nossos maiores e melhores interesses.

*Mestre em Relações Internacionais e Administrador de Empresas, o autor é Professor Associado da FDC, da Skema Business School e Founding Partner da SLC – Strategy, Leadership, Convergence.

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