Diálogos Internacionais Japão: mensagem do evento promovido pelo Internacionaliza BH em Fevereiro de 2017

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Diálogos Internacionais Japão: mensagem do evento promovido pelo Internacionaliza BH em Fevereiro de 2017

Diálogos Internacionais Japão: as mensagens que ficam dos eventos promovidos em fevereiro de 2017 pelo Projeto Internacionaliza BH sobre esta cultura milenar.

Por Monica Cordeiro e Rayssa Damásio

Dotado por combinação de usos e costumes asiáticos, americanos e europeus, o Japão possui aproximadamente 127 milhões de habitantes, dentre estes, os mais longevos de todo o planeta. O “país guerreiro” encanta o ocidente com suas facetas tecnológicas no automobilismo, na informática, na musicalidade e no mundo geek por meio de anime, mangá e vídeo games (DE MASI, 2014). Os potenciais recursos mostram-se além dos bens tangíveis: as artes, culinária, educação, gestão empresarial e o esporte, influenciados por valores historicamente reforçados pelo budismo, xintoísmo e confucionismo, são compartilhados ao restante mundo através do soft power.

Pode-se dizer que a cultura japonesa, mesmo com a junção de outros modelos de vida, torna-se única a partir do cultivo à diversidaderesiliênciacoletivismo e sofisticação.  Entretanto, devemos ser cautelosos ao quantificar ou qualificar as principais características deste povo, devido às mais variadas ações de referência em gestos singelos e delicados, com linguagem corporal e mensagens metafóricas.

Para melhor compreensão e reconhecimento das características intrínsecas ao povo japonês, perpassemos pela primeira constituição promulgada em 604 d.C., na qual impunha regras comportamentais aos súditos e governantes, baseada em princípios budistas e confucionistas. Os “dezessete artigos” – desenvolvidos pelo príncipe Shotoku – previam a harmonia; o respeito à hierarquia e à relação com os outros; crítica aos apegos materiais; o valor da ética; a meritocracia e principalmente, o coletivismo. Os japoneses mostraram-se à frente de seu tempo com avanços na filosofia e nas artes. Outro fator histórico que contribuiu para a construção da identidade japonesa foi quando da Era Meiji (1868), na qual o Japão desobstruiu os bloqueios à cultura ocidental (involuntariamente), junto à ascensão do xintoísmo (DE MASI, 2014).

Segundo Lumi Toyoda – pesquisadora da Gestão, Comportamento e Cultura japoneses, no Evento  de Capacitação em Etiqueta Empresarial Japonesa realizado na ACMinas – além de fatores históricos, fatores geográficos e climáticos também são cruciais para a interpretação do comportamento japonês: a introspecção pode ser entendida como decorrente  da  forma e geografia do país,  moldada por suas cordilheiras, rios cercados por montanhas  e as marcantes estações do ano. O respeito à natureza, propagado pelo xintoísmo, promove a interação íntima dos japoneses com o meio ambiente .  Este fato  condiciona treinadores em esportes e artes marciais a prepararem o interior e mente de seus atletas e, a posteori,  a parte física e técnica. Os japoneses cultuam a crença de que, para atingir os objetivos traçados, é necessário equilíbrio entre a mente e a habilidade física. Explica-se o alto desempenho do país em disputas internacionais. Entender o que “é nobre”  e “não nobre” – para os japoneses – conceito bastante explorado pela consultora, ajuda a entender a razão dos gestos e evitar ofender (por desconhecimento) quando do contato e negociação com executivos japoneses.

É perceptível que, “religiões”, modelos de vida ou filosofias advindas do oriente – budismo; confucionismo e xintoísmo – sempre apresentaram pontos em comum e, juntas, completaram-se durante milênios, determinantes para o processo de desenvolvimento social, político e econômico ao longo do tempo, embora estas sejam professadas minimamente na atualidade. Ainda assim, os japoneses não abandonaram a harmonia com a natureza e o grupo; a sinceridade; a disponibilidade; a humildade; a felicidade terrena; o cuidado com o interior; apreço pela qualidade de vida; disciplina e ética.

Ademais, os comportamentos japoneses – descritos anteriormente – auxiliaram na recuperação de tragédias no passado, a transformá-las em constantes aprendizados. As catástrofes humanas e naturais desenvolveram na sociedade japonesa a habilidade de recuperação perante a sociedade internacional, que juntamente com a capacidade em prevenção de riscos, atinge a realização de metas planejadas (movida pelo mérito) (CAVUSGIL et al., 2010; HOFSTEDE, 2016). Após a Segunda Guerra Mundial, devido à necessidade de obter-se a paz, o Japão buscou aprimoramento interno (principalmente na educação e na economia), na qual a cultura organizacional das empresas e escola de negócios japonesas detinham a mesma qualidade de universidades renomadas na América, em destaque nas práticas organizacionais e nos círculos de qualidade. As outras nações se interessavam por conhecer a metodologia corporativa japonesa para melhoria e resolução de problemas na administração de empresas (DE MASI, 2014). Os quadros negativos foram alterados positivamente por atitudes certas nos momentos certos

A partir dos predicados japoneses expostos, nos surge o seguinte questionamento: qual o segredo dos japoneses nos negócios e na cultura organizacional? No mesmo evento  de Capacitação em Etiqueta Empresarial Japonesa realizado na ACMinas, Lumi Toyoda apresentou os principais pilares para o entendimento da gestão japonesa de sucesso – a essência nipônica; o Bushidô e o Omotenashi. A consultora empresarial informou que é necessária a conscientização acerca do país e do povo, que  busca por relacionamento harmonioso, de respeito mútuo no ambiente corporativo da empresa.

Na cultura organizacional japonesa é imprescindível a prática do Bushidô. Os japoneses integram as sete virtudes de um samurai no mundo dos negócios (benevolência; coragem, cortesia, honra, justiça, lealdade e sinceridade), a fim manter a credibilidade, ética e compromisso nas demandas corporativas. Particularidades distantes das organizações instaladas no ocidente, nas quais o lucro máximo é a principal realização. No século XIX, para os ocidentais, as práticas do Bushidô ilustravam a resistência do povo nipônico para os interesses mercantilistas, no estabelecimento da expansão comercial. No combate a tal modelo de vida, o ocidente conseguiu que o Japão desobstruisse os bloqueios, a permitir transformações de modo de produção feudais para o sistema capitalista (LOPES; TAVARES apud CARVALHO, 2014).  Nos “Diálogos Internacionais Japão” aprendemos que o espírito Bushidô significa entrelaçar vários preceitos praticados no dia-a-dia, desde a esfera governamental, empresas privadas e  por  cada cidadão. Livros que abordam estes princípios são utilizados em cursos de Administração Empresarial para ensinamentos de competição – controle do tempo para cada atividade a desempenhar, o despertar da habilidade de identificar aquilo que outros colaboradores não conseguem enxergar; focar no objetivo traçado; estudar todas as opções existentes para atingir metas e apurar a intuição.

Considerada cultura de alto contexto por Edward T. Hall, no ambiente corporativo, os japoneses adotam comportamento educado, mantêm a atenção e respeito por todos, que somados ao compartilhamento de informações (trabalho em equipe), são importantes para o sucesso. Os relacionamentos pessoais conquistam clientes e determinam a qualidade do material que produzem, devido ao cuidado em oferecer (com a alma) o melhor para o próximo sem esperar retorno, denominado omotenashi – prática na qual o “cliente é Deus” e indica a delicadeza da hospitalidade japonesa, o sentimento de gratidão e o comprometimento em prever as necessidades do cliente (YANATA et al., 2016; TOYODA, 2017), que será abordado com mais afinco nos jogos olímpicos de 2020, em Tóquio.

No contato com representantes da comunidade japonesa em Belo Horizonte e São Paulo, observamos também  outras características de referências nipônicas: a segurança e objetividade presente nas palavras. A postura emblemática do japonês, ou de descendente que vivencia a cultura japonesa diretamente, exibe imponência. O olhar, na expressividade da confiança, apresenta-se de maneira intimidadora para nativos ocidentais, embora sejam muito polidos. Mesmo em territórios tão distantes, mineiros e japoneses dividem o tradicionalismo presente no dia-a-dia.

A sociedade belo-horizontina, bem como os brasileiros, devem verificar as novas dimensões, além da importação cultural japonesa proposta pelas artes marciais, culinária, vídeo games, animes ou mangás, automobilismo e informática.  A partir do contexto econômico e político internacional na contemporaneidade, o Japão mostra-se como uma das principais opções para exportação de produtos brasileiros e acolhimento de investimentos estrangeiros em infraestrutura, em especial – se considerarmos as  possíveis ações comerciais protecionistas de potências governadas por líderes populistas [governo Trump nos EUA].

Segundo o analista de negócios internacionais,  Marcello Vinícius de Oliveira, na abordagem dos recentes acontecimentos na relação Brasil-Japão, nos “Diálogos Internacionais Japão”, a participação dos japoneses na conjuntura comercial brasileira decresceu no período de 2012 a 2016. Este país passou a ser o 7º parceiro, sendo o 6º em exportações e o 8º em importações. O Brasil está posicionado no 21º lugar entre os fornecedores em mercado japonês.

A agenda recente das relações Brasil – Japão, que inclui a visita do Presidente Temer ao Japão em outubro de 2016 e a  assinatura do Memorando de cooperação para a promoção de investimentos em infraestrutura, integrado ao Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), reforça a expectativa de melhores resultados para a relação bilateral de negócios.

Com o  Acordo TrasnPacífico – TPP em vigor, ocorrerão mudanças no sistema de comércio internacional por meio da diminuição de regulamentações e restrições de serviços e novas normas para promoção de investimentos em pontos da América e Ásia (NICÁCIO, 2016). Embora não participe do acordo, o Brasil deve aproximar-se dos fóruns promovidos pelo grupo, a fim de prospectar novos rumos da economia mundial: atingimento de outras partes estratégicas da Ásia (60% da população do planeta) e da possível oportunidade de integração do agronegócio, na medida em que a saída dos Estados Unidos do TPP (grande exportador agrícola) facilitaria a entrada de commodities agrícolas e minerais brasileiras nestes mercados (JANK, 2017).

O fato é que as contínuas ações de órgãos governamentais como Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), têm promovido a cultura brasileira em ambiente japonês e permitido o aumento da exportação de alimentos como abacate, manga, melão, ovos, pão de queijo e bebidas derivadas da cana, segundo a Câmara de Comércio Brasileira no Japão (CCBJ). A nossa “mineirinha”, Forno de Minas, é um exemplo de êxito na internacionalização da culinária típica brasileira nos Estados Unidos e agora, no Japão.

As atividades de convívio com a comunidade e cultura japonesa promovidas pelo Internacionaliza BH em fevereiro de 2017, abrangendo um consistente evento de Capacitação em Etiqueta empresarial japonesa e ativa participação no 6o. Festival do Japão propiciaram aos participantes  refletir sobre todos estes aspectos registrados neste relato.  Fica a sensação de ter viajado ao Japão e ter, de verdade, cumprido com alegria  o objetivo do Projeto Internacionaliza BH – aproximar e aprender com as comunidades internacionais.  E o Japão tem muito a nos ensinar.

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REFERÊNCIAS

CÂMARA DE COMÉRCIO BRASILEIRA NO JAPÃO. Brasil e Japão, mas próximos nos negócios. Edição 22, dez. 2016.

CAVUSGIL et alNegócios Internacionais: estratégias, gestão e novas realidades. 1ª ed. São Paulo: Longman do Brasil, 2010, 544 p.

GIMENEZ, Karen. A incrível história dos samurais. Super Interessante, São Paulo, 12 nov. 2016. História. Disponível em: <http://super.abril.com.br/historia/no-fio-da-espada/>. Acesso em 26 jan. 2017.

HOFSTEDE, Geert. Cultural Dimensions: Japan. 2016. Disponível em: <https://geert-hofstede.com/japan.html>. Acesso em: 20 jan. 2017.

JANK, Marcos Sawaya. A parceria Transpacífico (TPP) é uma oportunidade para o Brasil. Notícias Agrícolas, São Paulo, 04 mar. 2017. Notícias – Agronegócio. Disponível em: <https://www.noticiasagricolas.com.br/noticias/agronegocio/187890-a-parceria-transpacifico-tpp-e-uma-oportunidade-para-o-brasil-por-marcos-sawaya-jank-.html#.WLywj9zYLow>. Acesso em: 05 mar. 2017.

LOPES, Yuri Márcio e Silva; TAVARES, Otávio. A ação-reflexão-ação dos saberes docentes dos mestres de karatê: construindo indicadores para a transformação da prática pedagógica. Revista de Educação Física. Vitória, v. 25, n. 1, p. 67-79, jan-mar. 2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/refuem/v25n1/1983-3083-refuem-25-01-00067.pdf>. Acesso em: 26 jan. 2017.

MASI, Domenico de. O futuro chegou. 1ª ed. São Paulo: Casa da Palavra – Leya, 2014. 768 p.

NICÁCIO, Adriana. Brasil e Japão devem caminhar para um acordo de livre comércio, diz CNI. Agência de Notícias – Confederação Nacional da Indústria. Tóquio, 04 out. 2016. Notícias. Disponível em: <http://www.portaldaindustria.com.br/agenciacni/noticias/2016/10/brasil-e-japao-devem-caminhar-para-um-acordo-de-livre-comercio-diz-cni/>. Acesso em: 26 jan. 2017.

TOYODA, Lumi. Cultura e Etiqueta Empresarial Japonesa. Belo Horizonte: Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), 2017. Palestra ministrada nos Diálogos Internacionais Japão, 17 fev. 2017. Palestra.

YANATA et al., Suguru. Tourism-oriented policy, economy and tourism English in Japan. International Conference on Education and New Developments 2016. Eslovênia, p. 33-36 jun. 2016. Disponível em: <https://www.academia.edu/26212650/UNIVERSITY_LEADERSHIP_THE_CASE_OF_UNIVERSIDAD_NACIONAL_AUTONOMA_DE_HONDURAS?auto=download>. Acesso em: 26 jan. 2017.

 

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