Cultura de Negócios para Minas Gerais

Cultura de Negócios para Minas Gerais

Por Mauro Werkema*

Uma  característica distintiva da personalidade  dos mineiros é a  hospitalidade. Trata-se de um traço de caráter herdado de três séculos de história e que decorre de fatores singulares da formação de  Minas Gerais, desde quando, nos anos finais do Século XVIII,   inicia-se a ocupação pioneira  do território interior do Brasil-Colônia pela  épica corrida do Ciclo do Ouro e a veloz atração de fluxos migratórios.  Nos territórios  da “Minas minerária”,  herdamos as cidades históricas e suas feições arquitetônicas e urbanísticas  setecentistas luso-brasileiras e, mais tarde, com o esgotamento do ouro e a fuga dos territórios minerais,  busca-se as   terras  mais propícias à exploração agropecuária, gerando o mineiro “geralista”. Em ambos mineiros, o minerador e o agropecuarista, os historiadores apontam a hospitalidade como traço marcante da herança cultural do  mineiro, resultado de suas lutas de afirmação e pelo domínio territorial, impondo  condutas de cordialidade, convivência e solidariedade como meios de sobrevivência.

Mediterrânea  no mapa brasileiro e sulamericano,  Minas localiza-se em estratégica posição de centralidade com os principais centros urbanos brasileiros do Sudeste, condição diferencial de favorabilidade  e competividade econômicas. É passagem de muitos caminhos e recebe diferentes influências culturais, geradoras de convívios  civilizatórios, de negociação e sobrevivência,   e que  explicam também outros componentes  da personalidade  dos mineiros,  amantes da boa conversa, da sociabilidade, com  propensão para o entendimento,  certa sobriedade, austero,   mas sempre com declarado  gosto pela cultura e pelas artes, cultivador da  história e do passado, com elevação de espírito e indesviável amor à sua terra e à sua origem, um tanto sonhador e com gosto pela política, entre outros traços apontados por vários estudiosos da Sociologia Regional.

Convivem em Minas tradição e modernidade, em singular diversidade cultural e natural. A mineração, extensiva na busca do ouro e pedras e, mais tarde, a pecuária no Norte e o café no Sul, geraram intensa ocupação com centenas de vila e arraiais, diversificando práticas culturais, sincretizando diferentes origens e tradições, compondo rico imaginário coletivo.  Do minerador ao sertanejo, do ruralista ao urbanista e municipalista,  as  Minas passam a ser “muitas” onde mesclam os muitos tipos humanos e também os talentos culturais, os “saberes e fazeres” que se expressam nas práticas da vida,  com intensa criatividade. Por isto, muitos são os  destinos turísticos de Minas, propiciando “sonhos” e “vivências” únicas, nas cidades históricas, nas fazendas originais, no encontro com a natureza, pródiga na ocorrência de  atrativos do seu meio físico, hoje com acesso facilitado,  permitindo  percepção entre o passado e a contemporaneidade,  gerando também oportunidades e vocações econômicas nos muitos segmentos integrantes da “produção associada ao turismo e à cultura”.

O Século XVIII mineiro, com sua efervescência cultural, não só nos legou formidável acervo patrimonial  histórico e artístico  mas tornou Minas Gerais o berço dos movimentos pela Independência  do regime colonial  português mas também da formação da nacionalidade brasileira.  Pioneira em várias iniciativas marcantes da vida nacional, Minas é  um “Estado-Síntese” do Brasil como apontam vários estudos de caracterização do Estado e dos mineiros a partir dos vários aspectos de sua vida, organização social, economia e contribuição cultural. Deste  fenômeno cultural  herdamos excepcional conjunto de  edificações   possuidoras de história, arte e arquitetura, tombadas por sua singularidade e exemplaridade, e  que  permitiram à  ONU/Unesco incluir na sua lista dos Patrimônios Culturais da Humanidade  Ouro Preto e  Diamantina  e o Conjunto Escultórico de Aleijadinho, Antônio Francisco Lisboa,  em Congonhas do Campo. E, mais recente,   o Conjunto  Modernista da Pampulha, obra  seminal de Oscar Niemeyer pela visão  empreendedora e visionária  de Juscelino Kubistchek. Hoje, historiadores e sociólogos  reconhecem  a especificidade de uma arte regional, contida no Barroco Colonial Mineiro , que foi “estilo de arte e de vida” e  que não se circunscreve à arquitetura  e  à talha ornamental sacra e profana. O surto artístico, cultural e intelectual do Século XVIII mineiro é fenômeno que se explica por uma singular confluência de fatores naturais, geográficos, étnicos, econômicos e que, até hoje, conforma e distingue a personalidade dos mineiros.

Nos nossos dias,   em que a aspiração pela qualidade de vida é  desejo  natural  e amplo,  o empresário investidor,  como também os executivos e profissionais liberais,  apresentam, demandas objetivas  quanto à oferta de bens e serviços culturais. A  decisão de localização de um empreendimento, além dos itens indispensáveis de   infra-estrutura urbana  e  serviços públicos eficientes, avalia  o  “clima cultural”, compreendendo as ofertas de cultura e educação , opções de lazer e  entretenimento,  a convivência saudável com comunidades,  entre outras  condições essenciais à moderna vida contemporânea.

Nos múltiplos aspectos e necessidades  da vida contemporânea, nos programas de desenvolvimento econômico,  na crescente  busca  por lazer, descanso, entretenimento e ofertas culturais,  muitas são as vocações e potencialidades de negócios  decorrentes da herança cultural mineira e a sua moderna resposta  sócio-econômica,  representada pelo  turismo, com  suas ramificações atuais  e  opções de empreendedorismo. Minas Gerais oferece imensa  lista de oportunidades nos diversos segmentos interligados  à sua diversidade cultural e natural,  e que são demandas crescentes da vida moderna com qualidade, seja no Turismo Cultural, no Turismo Rural, nos ramos do Turismo de Aventura, nos meios de hospedagem, transporte, alimentação, agenciadores e serviços receptivos e de orientação, promoção e marketing e outros. E oportunidades se  abrem  na crescente busca de atrativos naturais, como o encontro com a natureza,  nos seus rios, lagos ,montanhas, grutas e formações geológicas raras,  trilhas em  caminhos antigos, na convivência  com a vida rural  nas fazendas e pousadas, na culinária típica, no rico artesanato  e muito mais. Minas, acolhedora, oferece imensa rede de  hotéis e pousadas  e uma malha rodoviária que garante fácil acessibilidade,  fator que vem estimulando  um significativo crescimento do setor  nos seus  diversos segmentos.

Não há em Minas cidade ou região sem práticas culturais, sejam as festas do calendário cívico e  histórico da comunidade,  as festas religiosas que, sobretudo nas Cidades Históricas ainda se fazem com tradições preservadas, as festas  de caráter regional, ligadas à produção agropecuária e seus diversos ramos da indústria alimentícia,  de entretenimento ou folclóricas, quase sempre relembrando costumes antigos ou que difundem  a gastronomia local.Com 853 municípios, é imensa a diversidade cultural, que se alimenta não só pela herança de três séculos de história atuante mas pela multiplicidade de influências, vindas da formação multirracional dos primórdios da formação mineira mas também pela influência de fronteiras com outros Estados, característica muito própria de região mediterrânea e que, geograficamente,  compõem territórios de passagem e de convivências culturais. O patrimônio humano, geográfico e cultural de Minas Gerais, que tem na diversidade  sua principal característica, criando oportunidades de negócios, já faz do Estado um destino  de destaque no contexto brasileiro.

Mas, além dos aspectos históricos e físicos, Minas Gerais  tem nas atividades culturais não só um diferencial atrativo mas, e sobretudo, um fator importante no estímulo e favorecimento de empreendimentos e não só neste ramo em franco crescimento na sociedade contemporânea.  Há concreta disposição dos órgãos governamentais por seus órgãos de fomento às iniciativas empresariais e ao desenvolvimento econômico, mas também por parte das entidades representativas da indústria, do comércio, de serviços, do turismo e da cultura, interessadas em buscar oportunidades, apoiar e associar-se a iniciativas. Há, em resumo, clima   cultural em Minas Gerais favorável a iniciativas que tragam desenvolvimento e evolução  cultural  e econômica.

*Mario Werkema é jornalista, psicólogo e administrador. Já trabalhou em vários veículos, entre eles a TV Globo e Estado de Minas, onde foi editor-chefe. Na área de Comunicação Empresarial, trabalhou no Instituto de Desenvolvimento Industrial de Minas, BDMG e Copasa. Atuou como presidente da Belotur e é autor do livro “História, arte e sonho na formação de Minas Gerais” e de várias publicações sobre Cultura, Turismo e Marketing.

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