Ásia Meridional. Oportunidades para o Brasil?

Ásia Meridional. Oportunidades para o Brasil?

Por Marcello Vinicius de Oliveira

A Ásia Meridional é compreendida como a região que está mais ao sul na massa continental asiática, desconsiderando o extremo sul que possui uma geografia insular. A região possui ao norte a cadeia montanhosa do Himalaia e a China e está a leste do Oriente Médio e a Oeste da Costa Pacífica da Ásia. É banhada pelo Oceano Índico.

Mapa Ásia Meridional

(Fonte: Gooogle Maps)

Alguns autores identificam o Afeganistão como um Estado que compõe esta região, no entanto, neste artigo consideraremos o entendimento do Professor Marco Cepik (2012) da UFRGS acerca da Ásia Meridional, sendo esta então composta pelos seguintes países: Bangladesh, Butão, Índia, Maldivas, Nepal, Paquistão e Sri Lanka (CEPIK, 2012)

Segundo dados do Banco Mundial, a região possui um dinamismo único e isso se deve em parte ao expressivo aparato populacional, com uma população aproximada  de 1,67 bilhões de pessoas. Na última década o crescimento econômico regional foi de 7,1 % (THE WORLD BANK, 2016). Apesar dessa pujança, a região possui uma dinâmica singular: é altamente desintegrada, regionalmente falando. Não existe efetivamente um processo de integração econômica desses Estados, no mundo todo a Ásia Meridional apresenta a menor integração intra-regional (THE WORLD BANK, 2016). Para fins comparativos:

Regiões

Comércio Intra-Regional

Europa

60%

Leste Asiático

35%

Sudoeste Asiático

25%

Ásia Meridional

5%

(Fonte: The World Bank, 2016).

Isso devido em grande parte as rivalidades histórico-políticas entre os Estados regionais, que devido a predominância da agenda securitária, se veem impedidos de aprofundar suas relações em outras agendas, em virtude da constante desconfiança (THE WORLD  BANK, 2016). Os dois maiores e poderosos Estados da região,  Índia e Paquistão, estão tecnicamente em guerra há décadas e ambos são detentores de um considerável poder nuclear, evidenciando a fragilidade e consequentemente perigosas relações interestatais regionais.

Segundo Ricardo Bracelette (2012), considerando a Ásia como um todo, mas, mais precisamente o Extremo Oriente, os processos de integração econômica da região adotam uma dinâmica diferente do que usualmente se observa nesses cenários, essa diferença ocorre no âmbito dos próprios mecanismos interestatais. Ele menciona o exemplo dos processos de integração latino americanos, que são processos voltados para a promoção comercial e que encontram suporte nas próprias estratégias governamentais de cada Estado, na Ásia, o objetivo é distinto. Segundo o autor:

Na Ásia, a integração é resultante de investimentos empresariais e transferência de tecnologia intra e entre empresas, cujos objetivos primordiais estavam voltados, originalmente, aos ganhos de competitividade das firmas, para atuarem em escala de competição global, cujas exportações destinavam-se às economias centrais. Nesse sentido, o papel dos Estados asiáticos seria secundário aos fluxos existentes, facilitando-os em vez de criá-los (BRACELETTE, 2012, p. 22).

No entanto, por mais que no restante da Ásia esta “fórmula” de integração funcione, principalmente no leste asiático, onde atualmente há um forte movimento chinês nesse sentido, na Ásia Meridional esta modo não se aplica efetivamente. Segundo dados do Banco Mundial, “o investimento intra-regional é inferior a 1% do investimento total” (THE WORLD BANK, 2016). Portanto uma abertura para o mundo, tornou-se uma estratégia interessante para esses países.

A Índia durante boa parte de sua história pós independência em 1947, manteve uma postura  um pouco mais cautelosa e reservada ante a comunidade internacional, com isso transbordando também para um viés econômico-comercial, com um papel mais protecionista no comércio internacional. Durante a Guerra Fria não se alinhou consideravelmente a nenhum dos polos de poder (URSS X EUA) e buscou fortalecer o movimento dos países não alinhados . A causa desse isolamento se deve em grande parte à estratégia governamental de fortalecer suas bases produtivas e seu mercado interno de forma independente. Somente após 1991, com o fortalecimento da agenda pró-globalização, a Índia se abriu de modo efetivo ao mundo, apresentando um boom de crescimento econômico e comércio exterior, onde destacaram-se os setores de prestação de serviço, tecnologia e comunicação (CARDOZO; LACERDA, 2012).

O Estado indiano possui uma área total de 3,2 milhões de Km², com uma população aproximada de 1,2 bilhões de pessoas, sendo a segunda nação mais poderosa do mundo, com um previsão de se tornar a primeira em pouco tempo, em taxas de crescimento econômico, só perde para a China (VISENTINI, 2011).

Grafico India

(Fonte: Trading Economics, 2017).

O Paquistão  trabalhou recorrentemente uma agenda  mais próxima ao Ocidente, em decorrência dos movimentos de aproximação dos próprios países ocidentais, pela condição excepcional do Paquistão de ser o único país de maioria muçulmana com capacidade bélica nuclear, e o risco que os movimentos islâmicos extremistas  representavam a estabilidade do país. Também pela situação de tensão permanente com a Índia e os riscos sempre presentes da eclosão de um conflito nuclear regional.

O país possui uma população de aproximadamente 195 milhões de pessoas, com uma área territorial de 796 mil km², com um crescimento econômico contínuo (TRADING ECONOMICS, 2017).

Grafico Paquistão

(Fonte: Trading Economics, 2017).

A Ásia Meridional e suas relações com o Brasil

O Brasil possuí embaixadas em cinco países da região: Índia,  Paquistão, Nepal, Bangladesh, Nepal e Sri Lanka (CEPIK, 2012) Destes, os maiores parceiros do Brasil são Índia e Paquistão. Em especial a Índia , o Brasil possui laços bem estreitos, segundo o Ministério das Relações Exteriores Brasileiro,

As semelhanças entre os dois países e a intensidade do relacionamento contribuem para a coordenação em organismos e foros internacionais, como IBAS e BRICS, além de G4, G20, e BASIC. Brasil e Índia desejam contribuir para a reforma dos mecanismos de governança global, tornando-os mais legítimos e eficazes (ITAMARATY).

Até 2014, o intercâmbio comercial do Brasil com a Índia era de US$ 11,62 bilhões, com o país se constituindo assim como 8º parceiro comercial brasileiro até então.

País Intercâmbio Comercial Brasil

Período

Índia US$ 4.491 bilhões

2016 (jan-out)

Bangladesh

US$ 820 milhões

2016 (jan-ago)

Paquistão US$ 373 milhões

2016 (jan-ago)

Nepal

US$ 1.329 milhões

2016 (jan-ago)

Sri Lanka US$ 175 milhões

2016 (jan-set)

(Fonte: Ministério das Relações Exteriores)

Há oportunidades interessantes para o Brasil nos países dessa região, principalmente através de investimentos em áreas de infraestrutura, tecnologia agrícola e desenvolvimento humano.

Um exemplo da necessidade desses países em desenvolvimento infra-estrutural, é o caso do setor agrícola indiano. Em 2012, um relatório apresentado pela Departamento de Promoção Comercial do Ministério das Relações Exteriores Brasileiro, já evidenciava:

No exercício de 2011, a agricultura representou 15% do PIB da Índia e empregou 52% da força de trabalho da Índia, desempenhando um papel significativo no desenvolvimento sócioeconômico global do país. De 2006 a 2011, a agricultura vem registrando uma taxa de crescimento real de 3,27% e representa cerca de US$ 270 bilhões (MRE,2012)

No entanto, ao mesmo tempo apontava que um dos principais problemas enfrentados era a falta de infraestrutura para escoamento da produção, além da baixa tecnologia agrícola, como sistemas de irrigação inadequados, sementes da má qualidade, práticas agrícolas ultrapassadas, dentre outros problemas; que juntos, faziam com que ao menos 30% da produção se perdesse (MRE, 2012).

Além disso, a Índia está seriamente preocupada com sua capacidade energética, segundo um estudo feito pelo Sr. Michael Waldron, analista em investimento em energia da Agência Internacional de Energia, a Índia precisa diversificar rapidamente sua matriz energética e fortalecê-la, nas palavras do analista:

Furthermore, India’s growing dependence on fossil fuel imports, which account for around half of its energy consumption, is also raising new energy security concerns. This makes the energy sector transition a powerful driver for the government’s reform plans to increase the robustness and sustainability of power supplies while expanding affordable energy access (WALDRON, 2017)

O cenário que se tem então é de países que possuem poderosos mercados internos, com um grande contingente populacional, com altas taxas de fertilidade e com um contínuo crescimento econômico, que no entanto, apresentam altos níveis de pobreza e subdesenvolvimento, constituindo-se assim como mercado potencial  para investimentos em infraestrutura, educação, saúde e produção de alimentos . O fato de questões políticas impedirem uma maior aproximação regional desses países entre outras agendas, constitui- uma oportunidade para que países como o Brasil, que possuem boas relações com ambos os lados, e  no caso brasileiro um pouco mais aprofundas com a Índia, devido a cooperação em pautas como o BRICS, intensifique suas relações comerciais e crie oportunidades para empresas brasileiras.

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Referências

BACELETTE, Ricardo. Regionalismo na Ásia: da integração produtiva à institucionalização. Disponível em: <http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/4475/1/BEPI_n11_regionalismo.pdf > .  Acesso em: 26/05/2017

The World Bank. The Potential of Intra-regional Trade for South Asia. Disponível em: <http://www.worldbank.org/en/news/infographic/2016/05/24/the-potential-of-intra-regional-trade-for-south-asia> . Acesso em: 25/05/2017

The World Bank. South Asia Regional Integration. Disponível em: <http://www.worldbank.org/en/programs/south-asia-regional-integration> . Acesso em: 26/05/2017

Abelardo Arantes Júnior. O Paquistão e as estratégias ocidentais para a Ásia Meridional. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-73292003000100009> . Acesso em: 25/05/2017

Cepik,Marco. O Brasil e a Ásia. Disponível em: <http://professor.ufrgs.br/marcocepik/files/cepik_-_2012_-_seminario_peb_-_o_brasil_e_a_asia_04_mai.pdf> Acesso em: 26/05/2017

Ministério das Relações Exteriores – MRE. República Islâmica do Paquistão. Disponível em:<http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/ficha-pais/5632-republica-islamica-do-paquistao> Acesso em: 26/05/2017

Ministério das Relações Exteriores – MRE. República da Índia. Disponível em: <http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/ficha-pais/5238-republica-da-india> Acesso em: 26/05/2017

Ministério das Relações Exteriores –MRE. BANGLADESH Intercâmbio Comercial com o Brasil e Comércio Exterior. Disponível em: <https://investexportbrasil.dpr.gov.br/arquivos/IndicadoresEconomicos/web/pdf/INDBangladesh.pdf> Acesso em: 25/05/2017

Ministério das Relações Exteriores – MRE. PAQUISTÃO Intercâmbio Comercial com o Brasil e Comércio Exterior. Disponível em: <https://investexportbrasil.dpr.gov.br/arquivos/IndicadoresEconomicos/web/pdf/INDPaquistao.pdf> . Acesso em : 25/05/2017

Ministério das Relações Exteriores – MRE. Intercâmbio Comercial com o Brasil e Comércio Exterior – Índia. Disponível em:<https://investexportbrasil.dpr.gov.br/arquivos/IndicadoresEconomicos/web/pdf/INDIndia.pdf> . Acesso em: 25/05/2017

Ministério das Relações Exteriores – MRE. Intercâmbio Comercial com o Brasil e Comércio Exterior – Sri Lanka. Disponível em: <https://investexportbrasil.dpr.gov.br/arquivos/IndicadoresEconomicos/web/pdf/INDSriLanka.pdf> Acesso em: 25/05/2017

Ministério das Relações Exteriores – MRE. Como exportar: Índia. Disponível em: <https://investexportbrasil.dpr.gov.br/arquivos/Publicacoes/ComoExportar/CEXIndia.pdf> .Acesso em: 26/05/2017

Trading Economics. Pakistan GDP Growth Rate. Disponível em: <https://tradingeconomics.com/pakistan/gdp-growth> Acesso em: 26/05/2017

Trading Economics. Índia GDP Growth Annual. Disponível em: <https://tradingeconomics.com/india/gdp-growth-annual> Acesso em: 26/05/2017

WALDRON, Michael. International Energy Agency. Commentary: Energy is at the heart of India’s transformation. Disponível em: <https://www.iea.org/newsroom/news/2017/april/commentary-energy-is-at-the-heart-of-indias-transformation.html> Acesso em: 26/05/2017

VISENTINI,  Paulo Fagundes. As Relações Diplomáticas da Ásia. Editora Fino Traço, Belo Horizonte, 2012.

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