Ampliando o relacionamento entre o Brasil e a China

Por Aguinaldo Heber Nogueira *

A República Popular da China tem apresentado um crescimento econômico estonteante desde a ascensão de Deng Xiaoping ao cargo de secretário-geral do Partido Comunista Chinês em 1978.  Ele ocupou este cargo até 1992 e foi o criador do chamado socialismo de mercado, regime que vem sendo seguido pelas lideranças políticas daquele País desde então.

Nestes quase 40 anos, a China emergiu novamente como uma superpotência econômica, política e militar. É importante destacar que tal acontecimento que tem modificado substancialmente as relações entre as nações é a recuperação de uma situação que, para os chineses, predominou na maior parte de sua história contínua, a mais longa entre as nações do planeta. Portanto, apesar do assombro que isto causa no Ocidente e pela rapidez com que está acontecento, a China está apenas retornando a posição de liderança que, historicamente, sempre ocupou.

As elevadas taxas de crescimento econômico que caracterizaram a China a partir de Deng Xiaoping provocaram a rápida urbanização de um País que ainda era predominantemente rural,  impulsionaram a criação de enorme classe média, além de uma série de outras mudanças . Estes rápidos e extraordinários acontencimentos têm por pano de fundo, a nação com a maior população do planeta.

Aproveitando-se dessa ampla disponibilidade de mão-de-obra e de sua dedicação ao trabalho derivada da cultura confucionista, o Governo da China atraiu e apoiou investimentos produtivos focados no setor industrial voltados à exportação e transformou o País na “fábrica do mundo”.

Antevendo, contudo, que o próprio crescimento econômico elevaria os custos com mão-de-obra, a China intensificou os gastos com Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) de maneira exponencial. “O número de pedidos de patente internacional da China chegou a quase 43.100 em 2016, um aumento de 44,7% em comparação com o ano anterior” segundo publicou a Agência de Notícias Estatal Xinhua, reportando informações da Administração Nacional de Propriedade Intelectual (ANPI).

No ano passado, o País entrou para o seleto clube daqueles que registraram mais de 1 milhão de patentes nacionais, atrás apenas dos Estados Unidos e do Japão.  Em 2016, a China registrou cerca de 1,1 milhão de patentes. As duas empresas que mais se destacaram foram a Huawei e ZTE, empresas que atuam nos ramos de informática e telecomunicação, e que também se destacam no ranking da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI).

Atualmente, a China tem papel de destaque em praticamente todos os ramos industriais. Nos primeiros 15 anos de rápido crescimento, a partir do Governo Deng Xiaoping, o motor econômico eram as indústrias leves características da 1ª Revolução Industrial, como têxteis e confecções, calçados e brinquedos. A partir da segunda década de transformações, os chineses rapidamente assumem a liderança também naqueles ramos industriais desenvolvidos a partir da 2ª Revolução Industrial, como a indústria do aço e de outras metalurgias e a automobílistica.

Na última década, a China rapidamente avançou sobre os ramos surgidos com a 3ª Revolução Industrial conforme comprovam as patentes registradas pela Huawei e ZTE. Merece destaque também empresas como a Xiaomi, Lenovo, e Alibaba, que estão entre as maiores do mundo em suas areas de atuação que são a produção de telefones celulares, de computadores e comércio eletrônico, respectivamente.  Além disso, nos últimos anos, o Governo da China têm se empenhado em promover o desenvolvimento do setor de serviços e o apoio à internacionalização de suas empresas.

Os resultados deste esforço começam a aparecer com importantes empresas chinesas tendo destaque internacional em áreas como e-commerce, finanças, comércio internacional, energia, telecomunicações, navegação, aviação, dentre outras.

Neste contexto, de rápidas e significativas transformações e fruto de um bem executado planejamento estratégico, a China se transformou no principal país exportador do mundo. Em 2016, o País exportou US$ 2,19 trilhões.  Este montante é superior ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, em valores correntes, de 2016 que somou R$ 6,267 trilhões (cerca de US$ 2,0 trilhões – cotação de 08/05/17). Observar que estes dados não incluem a corrente de comércio de Hong Kong.

Por outro lado, a China passou a importar quantidades crescentes de matérias-primas para abastecer suas indústrias e de alimentos para o consumo de sua grande população que vai, cada vez mais, deslocando-se para a classe média e para as cidades. A partir de 2011, o país mais povoado do mundo, passou a contar com um contingente maior de sua população vivendo em áreas urbanas (690,79 milhões) que em espaços rurais (656,56 milhões de pessoas). Projeções indicam que a população urbana alcançará a marca dos 800 milhões de habitantes em 2020.

Para exemplificar o rápido crescimento na demanda por matérias-primas por parte da sociedade chinesa pode-se observar o que ocorreu com o minério de ferro, um dos três principais produtos exportados pelo Brasil para a China.  Em 2004, a China importou 124 milhões de toneladas e, em 2016, o total ultrapassou a marca de 850 milhões de toneladas de minério de ferro.  Um crescimento das aquisições externas desse insumo de quase 600% em 12 anos.

O Brasil foi particularmente beneficiado por essa crescente demanda por commodities e, na última década, a China consolidou a posição de maior parceiro comercial do Brasil. Em 2016, os chineses importaram US$ 37,4 bilhões, de um total de US$ 185,24 bilhões exportados por nosso País.  Os chineses foram responsáveis por adquirir mais de 20% das exportações brasileiras e esse percentual deve aumentar neste ano devido à elevação do preço internacional de algumas commodities e ao aumento da quantidade transacionada de outras.

Apesar desse espetacular desempenho observado na última década, as possibilidades para aumentar as vendas externas para o mercado chinês de maneira significativa são limitadas em razão de nossa pauta limitada. A maior parte das aquisições chinesas é formada por soja e derivados, minério de ferro e petróleo bruto que, também são os produtos mais vendidos pelo Brasil ao exterior.

A demanda chinesa por matérias-primas está se desacelerando devido ao menor crescimento econômico e às mudanças pelas quais a economia daquele país está passando com ênfase maior no desenvolvimento do setor de serviços e de indústrias de alta tecnologia.

Ao se analisar as estatísticas publicadas pelo International Trade Centre (ITC) pode-se verificar que as maiores taxas de expansão de itens das importações chinesas, atualmente, estão em componentes industriais e em bens de capital, itens que a participação brasileira no mercado internacional é pouco expressiva. Além do mais, muitas das exportações desses itens são em geral intercompanhias ou entre empresas interligadas em cadeias globais de valor das quais o Brasil está apartado devido aos elevados custos internos de produção, à distância geográfica entre os dois países e a falta de acordos comerciais que facilitem o intercâmbio com mercados internacionais relevantes. A China adquire a maior parte dos componentes industriais que precisa das nações asiáticas próximas como, Coréia do Sul, Japão, Tailândia e Vietnã. Alguns desses países também são grandes compradores de produtos chineses.

Passada a primeira onda que aumentou o relacionamento Brasil e China, que foi a da grande demanda oriental por commodities, nosso País vem se tornando nos últimos anos um importante receptor de investimentos chineses. Esse movimento se intensificou com as expressivas aquisições recentes de empresas brasileiras que foram negociadas em leilões de privatização, com as compras de subsidiárias de organizações envolvidas na Operação Lava Jato e de empresas com elevados passivos.

A continuidade desse processo, que pode ser caracterizado como uma segunda onda está estreitando ainda mais, o relacionamento econômico entre o Brasil e a Chinae e demonstra que estes dois países apresentam elevadas complementariedades que vão muito além do intercâmbio comercial. Enquanto a China tem conta com elevada taxa de investimento (média de 40% do PIB nos últimos 4 anos), a do Brasil (16,4% do PIB em 2016, segundo o IBGE), em contraste, se destaca como uma das menores entre as 20 maiores economias do planeta.

Devido à elevada poupança interna, os investimentos externos chineses em todo o mundo têm se ampliado de maneira signficativa pelo volume de inversões realizadas e pela maior diversidade de setores que têm recebido estes recursos. O Brasil, entre os emergentes, tem sido um dos maiores beneficiários deste movimento. O foco dos investidores chineses que, primeiramente, era na instalação ou na aquisição de empresas produtoras ou comercializadoras de commodities agrícolas e minerais, agora tem se espraiado para outros segmentos econômicos como o financeiro, o imobiliário e o de infraestrutura, este com mais oportunidades evidentes e prementes.

A infraestrutura brasileira é particularmente deficitária em relação à de nossos principais competidores internacionais, portanto as oportunidades nessa área são enormes e isto tem atraído a atenção de investidores de vários países, destacando-se os chineses. Em 2016, a empresa State Grid adquiriu o controle da CPFL Energia por mais de R$ 20 bilhões e as usinas hidrelétricas de Jupiá e de Ilha Solteira foram compradas pela China Three Gorges por R$ 13,8 bilhões. Esta Empresa também adquiriu as operações da Duke Energy no Brasil por US$ 946,7 milhões, equivalentes a R$ 3,1 bilhões.

Além dessas aquisições, os chineses também têm realizado investimentos em implantação de projetos. A State Grid Brazil Holding está construindo o segundo bipolo de Belo Monte que vai escoar energia do Pará para a região Sudeste, até o município de Nova Iguaçu (RJ). A linha de transmissão terá 2.550 km de extensão, custará R$ 7 bilhões e deverá estar concluída até 2019.  A Aneel estima a geração de 16,8 mil empregos diretos com este projeto.

Além do setor de energia elétrica, os de abastecimento de água e saneamento, mobilidade urbana e o de concessões rodoviárias podem ser extremamente atrativos para investidores internacionais. Inversões nessas áreas em que o Brasil apresenta carências evidentes contribuem para a melhoria sistêmica da competitividade econômica nacional e são também importantes porque geram muitos empregos em sua fase de implantação e podem contribuir para melhorar o equilíbrio fiscal dos entes federados que, neste momento, enfrentam uma situação extremamente desafiadora.

No Brasil, o Governo do Estado de São Paulo tem sido bem sucedido em transferir importantes projetos de infraestrutura para a iniciativa privada. Somente, em 2017, o governo paulista arrecadou mais R$ 1 bilhão com a concessão de rodovia e de aeroportos, mas, o mais importante, assegurou investimentos de R$ 9 bilhões que serão aportados pela iniciativa privada nos próximos anos, inversões que o Estado ficará desonerado de realizar e que poderá direcionar para outras áreas consideradas mais prioritárias.

O Governo de São Paulo pretende conceder ainda a operação das linhas 5, 15 e 17 do metrô da megalópole paulista para a iniciativa privada. A ideia é que as linhas operem com eficiência semelhante à da Linha 4, que já é administrada por empresas particulares. Concessões de trechos do metrô podem ser extremamente interessantes a empresas chinesas que têm grande expertise na área. O metrô de Xangai que iniciou a operação de sua primeira linha em 1993 conta atualmente, com mais de 600 km de extensão, maior que a somatória de todas as linhas de metrô existentes nas cidades brasileiras.

As empresas chinesas interessadas em investir no Brasil podem contar com o apoio dos bancos multilaterais de seu País, como o China Development Bank, e de fundos de investimento soberanos como o Clai Fund (Fundo Chinês para Investimento na América Latina), o Clac (China Latin America Cooperation Fund), e o CIC (China Investment Corporation).  Observar que a China conta com esses bancos e fundos para apoiar as empresas chinesas que querem se internacionalizar porque conta com excesso de poupança, situação oposta a do Brasil.

A existência e a facilidade para acessar esses recursos que ainda contam com taxas de financiamento adequadas à atividade produtiva é uma vantagem competitiva que as empresas chinesas levam em relação à de outros países, particularmente as brasileiras que convivem com taxas de juros reais elevadíssimas e com sérias restrições de acesso ao crédito.

Mas para continuar a atrair investidores, independente da origem do capital, é importante que o Brasil trabalhe dois itens fundamentais: a questão da adequada remuneração do capital aplicado e o respeito às regras acordadas entre as partes.

Infelizmente, nem sempre no Brasil seguimos estes dois princípios basilares. Haja vista, por exemplo, a edição da MP 579/2012, depois convertida na Lei nº 12.783, de 2013, e que, ao romper contratos, desarticulou o setor elétrico e gerou passivos que serão pagos pela sociedade brasileira ao longo dos próximos anos.

Mas, a despeito da importante contribuição dos capitais internacionais para a economia nacional, o Brasil não deve contar com eles como panaceia milagrosa que solucionará os graves problemas macro e microeconômicos que afetam o País. A resolução desses problemas tão conhecidos e discutidos tais como crédito escasso e sistema tributário extremamente oneroso à produção, dentre muitos, dependerá apenas da sociedade brasileira.

Outro gargalo que atrapalha o maior crescimento das empresas brasileiras e dificulta o maior avanço das exportações brasileiras de produtos de maior valor agregado é o baixo índice de investimentos em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D).  Neste caso, temos muito que aprender com os chineses que priorizaram os investimentos em P&D como estratégia para ampliar e manter a competitividade internacional de suas empresas e de seu País.

O Brasil e Minas Gerais, em particular, têm algumas ilhas de excelência que devem receber especial atenção das entidades governamentais. Gastos em P&D não devem ser tratados como despesas, mas como investimentos e devem ser preservados mesmo em época de crise econômica.

Á título de exemplo cita-se o San Pedro Valley, comunidade com mais de 300 startups localizada em Belo Horizonte e que continua a prosperar a despeito da crise econômica que assola o País. Certamente, este grupo de empresas e outros vários existentes em todo o Brasil poderiam ter tido maior taxa de expansão e de geração de empregos se fossem efetivamente apoiados pelo poder público.

Os investimentos em P&D, contando com o apoio efetivo das instituições públicas de fomento e das universidades, poderão contribuir para dar sustentabilidade a um novo ciclo de crescimento da economia brasileira. Cabe ressaltar que, sempre se deve apoiar os micros, pequenos e médios empreendimentos, independente do setor econômico que atuem, porque são os principais responsáveis pela geração de empregos em todo o mundo.

Para finalizar, vamos recordar que os chineses construíram grandes empresas globais nas últimas duas décadas, como as já citadas Alibaba, Lenovo e Xiaomi, a partir de pequenos negócios criados por empreendedores ousados. Porém, grande parte do sucesso obtido decorreu do apoio que obtiveram dos mais diversos públicos que compõem a sociedade chinesa.

*O autor é professor nos cursos de Administração e de Ciências Contábeis nas Faculdades Milton Campos.

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Referências

CONSELHO EMPRESARIAL BRASIL-CHINA (CEBC). Balança Comercial Brasil-China 2017. http://www.cebc.org.br/pt-br/dados-e-estatisticas/comercio-bilateral/balanca-comercial,  acesso em 05 de junho de 2017.

G1.  China conta agora com mais população urbana que rural.  http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/01/china-conta-agora-com-mais-populacao-urbana-que-rural-1.html, acesso em 06 de junho de 2017.

G1. Governo de SP arrecadou R$ 1 bilhão com privatizações de rodovias e aeroportos este ano. http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/sp-concede-estradas-e-aeroportos-a-empresas-que-deverao-investir-r-9-bilhoes.ghtml, acesso em 05 de junho de 2017.

G1. Chinesa State Grid vence leilão da 2ª linha de transmissão de Belo Monte. http://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2015/07/comeca-leilao-da-2-linha-de-transmissao-de-belo-monte.html, acesso em 05 de junho de 2017.

INTERNATIONAL TRADE CENTRE  (ITC). www.intracen.org/, acesso em 05 de junho de 2017.

MINISTÉRIO DA INDÚSTRIA, COMÉRCIO EXTERIOR E SERVIÇOS (MDIC). Balança bate recorde em 2016 com superávit de US$ 47,7 bilhões. http://www.mdic.gov.br/noticias/2194-balanca-bate-recorde-em-2016-com-superavit-de-us-47-7-bilhoes, acesso em 06 de junho de 2017.

XINHUA. Número de pedidos de patentes internacionais da China cresce em 2016. http://portuguese.people.com.cn/n3/2017/0323/c309806-9194052.html, acesso em 06 de junho de 2017.

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