Investimentos estrangeiros no Brasil e em Minas Gerais em 2016

Investimentos estrangeiros no Brasil e em Minas Gerais em 2016

Aguinaldo Heber Nogueira

Os Investimentos Estrangeiros Diretos (IED’s) contribuem para o desenvolvimento econômico de um país receptor na medida em que podem ser importante fonte de inovação tecnológica, expandem a capacidade produtiva, introduzem novas técnicas empresariais e administrativas, ampliam a competição interna, dentre outras vantagens que costumam ser elencadas.

Após a crise de 2008, o fluxo de IED’s tem apresentado menor dinamismo que em anos imediatamente anteriores.  Seguindo este padrão, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) informa que os IED’s em termos globais caíram 13% em 2016 quando comparado a 2015. Apesar disso, esses investimentos alcançaram o respeitável montante de US$ 1,52 trilhão.

A UNCTAD atribui a queda nos IED’s verificada em 2016 ao baixo crescimento econômico mundial, à queda dos preços das commodities e a redução da intensidade de crescimento nos processos de fusões e aquisições realizados por empresas transnacionais.

As fusões e aquisições, que respondem por cerca de 55% dos IED’s, ainda que tenham apresentado expansão de 13% ao subirem de US$ 735 bilhões, em 2015 para US$ 831 bilhões, em 2016, mostram clara desaceleração. A taxa de expansão de13% de 2016 sobre 2015 é bem inferior aos avanços de 67% e 68% registrados em 2014 e 2015 e bem inferior ao valor recorde alcançado em 2007 de US$ 1,03 trilhão.

Brasil – Apesar desse baixo dinamismo, o desempenho médio mundial foi superior ao brasileiro. Em 2016, o Brasil atraiu US$ 50 bilhões, montante 23% abaixo do observado em 2015 quando alcançou USS$ 65 bilhões.

A queda mais intensa do Brasil, em termos de atratividade de capitais, deveu-se a diversos fatores internos e externos dentre os quais se destacam a mais forte recessão econômica vivida pelo País em décadas e que foi agravada pela crise político-social e também pela queda dos preços das principais commodities exportadas pelo País. Essas matérias-primas agrícolas e industriais respondem por cerca de 60% do comércio exterior brasileiro.

É importante ressaltar que o Brasil, apesar da queda observada, continua a ser um dos principais destinos para investimentos internacionais em todo o mundo. Em 2016, o nosso País foi o 6º maior receptor de capitais, atrás apenas de Estados Unidos (US$ 385 bilhões), Reino Unido (US$ 179 bilhões), China (US$ 139 bilhões), Hong Kong (US4 93 bilhões) e empatado com Singapura (US$ 50 bilhões). Isto demonstra que, apesar das adversidades pelas quais passamos, nosso País importantes diferenciais competitivos como  expressivo fornecedor de matérias-primas e o tamanho de seu mercado interno.

Os investimentos, de maneira geral, podem ser classificados em greenfield, quando destinados à criação de um novo negócio, ou brownfield, aqueles destinados à aquisição ou a fusão a uma estrutura produtiva já existente.

Fusões e Aquisições – No Brasil, a exemplo do observado na maior parte do mundo, os IED’s direcionados a fusões e para aquisições têm peso relevante. Em 2016, as multinacionais desembolsaram R$ 119,75 bilhões para aquisições de ativos no país, segundo levantamento da consultoria Transactional Track Record (TTR). Essas operações envolveram 237 transações em que empresas brasileiras foram adquiridas por multinacionais.

A crise econômica, o alto endividamento das empresas brasileiras, as privatizações e as restrições de crédito para os grupos envolvidas na Operação Lava-Jato contribuíram para que várias operações de aquisição de importantes empresas nacionais fossem concretizadas em 2016.

Como exemplos desse processo de desnacionalização destacam-se os realizados pelas empresas chinesas State Grid que comprou a CPFL Energia por mais de R$ 20 bilhões e a aquisição das usinas hidrelétricas de Jupiá e de Ilha Solteira pela China Three Gorges por R$ 13,8 bilhões. Esta Empresa também adquiriu as operações da Duke Energy no Brasil por US$ 946,7 milhões, equivalentes a R$ 3,1 bilhões.

Outra companhia estrangeira que vem se destacando nos processos de aquisição é a canadense Brookfield. Esta Empresa adquiriu o gasoduto NTS, que pertencia à Petrobras, por US$ 5,2 bilhões; e 70% da Odebrecht Ambiental, dentre outros investimentos que realizou. Com esses negócios, os ativos da Brookfield no Brasil  passaram de R$ 41 bilhões para R$ 61 bilhões.

Investimentos greenfield – Apesar da inegável importância dos processos de aquisições e fusões para as empresas vendedoras e para as compradoras, sob a ótica do crescimento econômico de um país, os investimentos mais importantes são aqueles destinados a implantação de empresas, os greenfield.

A Rede Nacional de Informações sobre o Investimento (RENAI), do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), informou que os investimentos anunciados para o Brasil, em 2016, somaram US$ 69,51 bilhões. Deste total, US$ 53,68 bilhões foram provenientes de empresas multinacionais, 77,22% do total.

Os principais investimentos anunciados por multinacionais no ano passado e a serem aplicados no Brasil nos próximos anos foram realizados pela Shell (US$ 10 bilhões), Telefônica (US$ 7,5 bilhões), Techxact (US$ 5,4 bilhões), Enel Green Power (US$ 4,7 bilhões), Statoil/Sinochen (US$ 3,5 bilhões), TIM (US$ 3,4 bilhões) e Volkswagen (US$ 2,2 bilhões).

Minas Gerais – Historicamente, os investimentos estrangeiros sempre foram de extrema importância para o desenvolvimento econômico e social de nosso Estado, especialmente a partir dos anos 70 do século XX, conforme já comprovado por diversas pesquisas acadêmicas.

Ainda hoje, entre as 10 principais empresas em faturamento em Minas Gerais, metade desse conjunto é constituída por empresas multinacionais. Os dois maiores empregadores privados do Estado também são estrangeiros, segundo o XX ranking preparado pela Revista Mercado Comum.

Mas, ao analisarmos os dados disponibilizados pela Renai sobre os investimentos atraídos para o Estado em 2016, tem-se um cenário diferente do observado no plano nacional.

As intenções de investimentos em Minas Gerais, segundo estado mais populoso e que contribui com 9,1% para a formação do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, foram de US$ 2,70 bilhões em 2016,  3,9% do total anunciado para o País. Deste total, US$ 1,61 bilhão é oriundo de capitais internacionais, 3% do montante a ser aplicado no Brasil por este tipo de empresa.

Mesmo desconsiderando aquelas inversões que ainda não definiram o local aonde irão se instalar definitivamente e aquelas que serão aplicadas em vários estados brasileiros, caso das empresas de telecomunicações, o percentual a ser destinado a Minas Gerais, ainda assim, é inferior representatividade do Estado em termos econômicos e demográficos.

Perspectivas – Como apresentado, o Brasil, apesar da forte crise econômica que atravessou nos anos de 2015 e 2016, continuou a ser um importante receptor de IED’s em termos mundiais.

Para 2017, o Banco Central prevê que o Brasil receba mais US$ 74,5 bilhões, montante similar ao recebido em 2016. Mas, este valor poderá ser superior ao estimado, pois somente em janeiro, o Banco Central registrou a entrada de US$ 11,5 bilhões em investimento estrangeiro direto no país. Também contribui para essa visão mais otimista, os sinais incipientes de retorno do crescimento econômico, a intensificação dos programas de privatização e de concessões públicas e algumas mudanças legislativas que contribuem para melhorar o clima empresarial e tornar o País mais atrativo à recepção de capitais internacionais.

Uma prova desse renovado interesse foram as privatizações dos aeroportos de Porto Alegre, Salvador, Fortaleza e Florianópolis ocorridos em março de 2017 e que foram adquiridos por empresas europeias por R$ 3,72 bilhões.

Espera-se que a maior participação de investidores internacionais contribua para que o Brasil retorne o caminho do crescimento econômico e promova a geração de mais empregos em um País com mais de 12 milhões de pessoas sem ocupação.

Obs.: O autor é professor nos cursos de Administração e de Ciências Contábeis nas Faculdades Milton Campos.

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REFERÊNCIAS

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório Focus. Disponível em: http://www.bcb.gov.br/pec/GCI/PORT/readout/R20170317.pdf. Acessado em 18 de março de 2017.

MERCADO COMUM. XX Ranking Mercado Comum de Empresas Mineiras. Disponível em: http://www.mercadocomum.com/site/artigo/detalhar/xx_ranking_mercadocomum_de_empresas_mineiras. Acessado em 17 de março de 2017.

TRANSACTIONAL TRACK RECORD (TTR). Guia de M&A 2016 – Brasil. Disponível em: https://www.ttrecord.com/pt/publicacoes/guias/. Acessado em 20 de março de 2017.

UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND DEVELOPMENT (UNCTAD). Global Investment Trends Monitor. Disponível em:  http://unctad.org/en/PublicationsLibrary/ . Acessado em 26 de março de 2017.

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