Em Roma, como os romanos.

Em Roma, como os romanos.

Por Ricardo Lugris*

Nos últimos 22  anos vivendo na França, me é relativamente comum receber comentários de brasileiros em turismo por Paris de que os franceses, em geral,   são rudes, grosseiros.

Nessas mais de duas décadas por terras da Gália, tenho entretanto observado que seguidamente nossos compatriotas entram em  lojas parisienses  sem dizer o sagrado “bonjour” aos presentes, saem igualmente sem se despedir e, o que é pior, sem sequer agradecer pela oportunidade da visita.

Na França, por definição cultural, um estabelecimento comercial é a extensão da casa de seu proprietário e, por decorrência, o visitante deve portar-se como tal, seguindo o ritual que determina o início de qualquer contato ou conversa, com um simples e sorridente,  “bonjour messieurs-dames”.  Nada pessoal, apenas um cumprimento jogado ao vento ao entrar no recinto  é suficiente para que a resposta venha embebida em gestos de uma habitual boa vontade.

É bem verdade, por outro lado, que os franceses tem, por rigidez convencional,  uma certa dificuldade em dizer “desculpe”, ou “perdoe-me”, da mesma forma que os brasileiros, de forma geral, tem muitas vezes dificuldades em  pronunciar  o imprescindível “por favor” ou, por força de nossa cultura latina, expresar um  simples e definitivo,  “não”, quando este se faz  necessário.

Sobretudo nos negócios, saber dizer “não”de forma clara  pode evitar uma custosa e dispensável perda de tempo mas nossa proverbial e atávica vontade brasileira de agradar,  impede muitas vezes de definir-mos  negativamente uma determinada situação.

Fica por demais evidente que essas  pequenas diferenças culturais quando percebidas a tempo, permitem e facilitam um melhor entendimento entre  pessoas de origens diferentes  em um nível de comunicação que vai claramente  muito além do simples domínio do idioma.

Criar, desenvolver e preservar relacionamentos pessoais ou comerciais com indivíduos de outras culturas, geografias ou nacionalidades exige de cada um de nós algo de conhecimento prévio de  suas próprias tradições e costumes, além de uma razoável  abertura de espírito e flexibilidade,  a fim de poder melhor integrar-se, entender e ser entendido no que diz respeito às inevitáveis idiosincrasias de cada cultura, detalhes que definitivamente fazem deste nosso vasto mundo um lugar muito mais divertido e que nos colocam positivamente como agentes ativos e engajados  a favor de entendimento e compreensão de além fronteiras.

Um dos aspectos mais interessantes a ser constatado na análise das  múltiplas diferenças culturais com que nos deparamos pelo planeta, tem a ver com a  percepção  e emprego de sua majestade, O TEMPO.

Evidentemente um escandinavo não terá em qualquer hipótese, a mesma noção de medida e urgência de tempo do que um latino-americano ou um africano e a dimensão de seu emprego do mesmo  será, sem a menor sombra de dúvida, proporcional às  variações e prioridades determinadas pelo seu nativo ambiente cultural.

Deve haver uma relação da relatividade do tempo com o fato de que escandinavos jantem às 18h e os espanhóis e gregos às 23h, não é mesmo?

No livro que estou publicando no Brasil  nos próximos meses, e que justamente se intitula “Tempo em Equilíbrio” onde conto as reflexões de minha simples experiência em uma viagem de motocicleta em solitário durante seis meses e 35 mil quilômetros,  entre  Paris e Singapura, menciono um curioso episódio ocorrido há alguns anos,  por ocasão de uma  sempre laboriosa passagem de fronteira em terras africanas.

– Esperando já há algumas horas para receber a autorização de poder cruzar com minha moto a remota divisa  entre dois esquecidos países naquele vasto continente, fiz  um gesto impaciente apontando para meu relógio de pulso, acompanhado de linguagem corporal denotando irritação  ao plácido e impassível policial que se encontrava a alguns metros de mim, do outro lado da barreira fronteiriça, evidentemente, fechada.

Serena e tranquilamente, como convém a um africano, ele respondeu mostrando de forma amigável um meio-sorriso:

– Vocês, os europeus, tem relógios. Nós, os africanos, temos o tempo.

E  completou: Você vai ficar aí até que eu decida quando vai passar.

E ele tinha toda a razão. Com algumas simples palavras  deu-me uma extraordinária lição de paciência, de tolerância, de autoridade  e, sobretudo de que,  quando em Roma, devemos nos portar como romanos.

Em qualquer relacionamento que envolva diferentes e múltiplas culturas, devemos estar atentos  aos tempos relativos de  cada uma delas  como ferramenta para criar empatias e harmonia e, assim conseguir  fazer fluir nosso próprio projeto comercial ou pessoal, sem contudo  impor ritmos ou velocidades que se traduziriam muito  pouco adequadas ou produtivas para a ocasião, aceitando ao fim e  ao cabo, quase que naturalmente,  o “tempo” no lugar do “relógio”.

Nós, brasileiros, de maneira geral somos vistos na comunidade internacional como seres afáveis, cordiais, agradáveis, alegres  e hospitaleiros, o que nos propricia uma excelente vantagem competitiva em relação a culturas mais rígidas ou mais herméticas, apegadas e atreladas  a tradições e costumes milenares. Por que então não impor também nossa eficiência e capacidade criativa  com um tempo diferente daquele utilizado tradicionalmente por Europeus ou Norte Americanos?

Durante mais de 30 anos, na qualidade de executivo de vendas internacionais da Embraer, defendi e empreguei  a utilização de características diferenciadas da cultura brasileira como identidade e ponto-forte para a atividade comercial da empresa.

Deveríamos tentar ser não somente os melhores, mas sobretudo os mais confiáveis e os mais agradáveis na convivência com o cliente,  aproveitando os excelentes meios que nossa cultura oferece como veículo de tolerância e integração e com um aspecto de identidade  todo especial, exclusivo de nossa colorida herança cultural e humana.

Voltando ao exemplo inicial da França, poucos estrangeiros  se dão conta de que os franceses são um povo milenar e que sua terra, ao longo da  história,  jamais foi conquistada, obviamente se não considerarmos os quatro anos de ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial.

Sendo assim, a França, a exemplo de outros países também milenares  como o Japão, a Índia ou a China, desenvolveu soluções e códigos  à sua maneira e obviamente  certos rituais de comportamento  são exigidos cotidianamente mesmo àqueles que simplesmente visitam o belo país dos gauleses.

Da mesma forma, quando um brasileiro lida com outras culturas, ele parte de um certo ponto cultural pré estabelecido, (e não deve ser confundido com pré-conceito) isso graças à nossa herança de colonização e nossas próprias origens, sejam estas,  europeias, orientais, nativas ou africanas,  hoje amalgamadas neste nosso vasto país, confirmando o que disse Sergio Buarque de Hollanda,  que  “ O brasileiro é milagrosamente um só”.

Entretanto, assim como em outras nações também jovens, originárias da expansão européia e do  produto das grandes navegações e descobrimentos do novo mundo, nossa cultura foi se particularizando e naturalmente criou detalhes de comportamento e atitudes nem sempre classificados em outros pagos como positivos,  com os quais somos obrigados, por força de nossas próprias convenções nacionais,  a viver e mesmo relutantemente, a aceitar.

Se queremos mover-nos em um âmbito pleno internacional, precisaremos ter  a abertura cultural de entender que como demonstração de amizade, um empresário africano poderá lhe conduzir de mãos dadas pelas dependências de sua indústria e, com isso mostrar a seus colaboradores que ali se encontra com ele alguém de sua inteira confiança.

Também é comum na Itália, ou na França que um associado comercial ou cliente, te receba com  dois beijos na face ao chegar para uma visita de trabalho, isso diante de todos os presentes. Considere esse gesto  um atestado de amizade e confiança pois nessas culturas os amigos se beijam, da mesma forma que no Brasil os mesmos amigos calorosamente se abraçam de forma entusiasmada e cheia de energia.

O que realmente conta nos dois exemplos acima, é a indiscutível demonstração de apreço que o estrangeiro está a receber.

Apesar das evidentes e infinitas diferenças culturais ao redor do planeta com as quais qualquer executivo estrangeiro deverá conviver, aceitar, entender e finalmente apreciar, há evidentemente valores que representam uma unanimidade quase  absoluta em qualquer lugar.

Apectos  como sinceridade, honestidade intelectual e moral, pontualidade, tolerância, cortesia, amabilidade e outros,  formam parte de um vasto perfil comportamental  que poderá se aproximar de uma quase unânime aceitação de um estrangeiro em qualquer lugar dos  quatro cantos do mundo.

Assim, se na condição de brasileiros, além de mostrar que conhecemos e dominamos nossa própria cultura e, sem contudo impor,  pudermos aportar os  valores positivos que carregamos em nossa herança nacional e  formos obviamente  capazes de incorporar novos e desconhecidos valores aceitando sinceramente   culturas alheias à nossa, seremos ainda mais flexíveis e infinitamente muito mais eficientes, intencionalmente fortes e definitivamente bem mais livres.

Porque, finalmente,  como disse nosso grande poeta, Carlos Drummond de Andrade:

“Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar”.

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*O autor tem 35 anos de experiência como executivo de vendas internacionais na aviação e mantém um harmonioso equilíbrio com a atividade de motociclista de longo curso, com mais de  600 mil km e uma centena de países percorridos em duas rodas. Poucos sabem, mas escrever é seu verdadeiro hobby.

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